Nós vos pedimos com insistência:

Nunca digam - Isso é natural

Diante dos acontecimentos de cada dia,

Numa época em que corre o sangue

Em que o arbitrário tem força de lei,

Em que a humanidade se desumaniza

Não digam nunca: Isso é natural

A fim de que nada passe por imutável.



Berthold Brecht



DOWNLOAD: DAJLA - SOUL POETRY - 2006 - VBR
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Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne a aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!

Eduardo Alves da Costa



DOWNLOAD: BIG BLACK - LION WALK - 1968 - 192 Kbps

SOBRE O TRÁFICO ASSASSINO


Entre 1500 e 1867, cerca de 12,5 milhões de africanos foram sequestrados e enviados às Américas.
Destes, perto de 10 milhões chegaram ao seu destino.



Cerca de 5,5 milhões de africanos deixaram forçadamente seu continente para trabalhar no Brasil.
Aproximadamente 4,9 milhões chegaram vivos.



Entre 1800 e 1850, ápice do tráfico, quase 2,3 milhões de africanos foram enviados ao Brasil.
775 mil deles eram crianças.





Em "Uma história de liberdade", José Reis & Flávio Gomes afirmam que 15 milhões de africanos chegaram vivos à América; 6 milhões ao Brasil.



DOWNLOAD: THE INVADERS - SPACING OUT - 1970 - 320 Kbps
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O MEDO



Em verdade temos medo.
Nascemos no escuro.
As existências são poucas;
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.
E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
Vadeamos.
Somos apenas uns homens e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes.
Refugiamo-nos no amor,
Este célebre sentimento,
E o amor faltou: chovia,
Ventava, fazia frio em São Paulo.
Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
Nos dissimula e nos berça.
Fiquei com medo de ti,
Meu companheiro moreno.
De nós, de vós, e de tudo.
Estou com medo da honra.
Assim nos criam burgueses.
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?
Vem, harmonia do medo,
Vem ó terror das estradas,
Susto na noite, receio
De águas poluídas. Muletas
Do homem só.
Ajudai-nos, lentos poderes do
Láudano.
Até a canção medrosa se parte,
Se transe e cala-se.
Faremos casas de medo,
Duros tijolos de medo,
Medrosos caules, repuxos,
Ruas só de medo, e calma.
E com asas de prudência
Com resplendores covardes,
Atingiremos o cimo
De nossa cauta subida.
O medo com sua física,
Tanto produz: carcereiros,
Edifícios, escritores,
Este poema,
Outras vidas.
Tenhamos o maior pavor.
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.
Adeus: vamos para a frente,
Recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,
Eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
Dançando o baile do medo.

Carlos Drummond Andrade


DOWNLOAD: NIRVANA
- FROM THE MUDDY BANKS OF THE WISHKAH - 1996 - 224 Kbps

MONUMENTALISMO



1. Monumentos funcionam como símbolos concretos de uma memória reconstituída e imposta.

2. O monumentalismo é uma tentativa concreta de deter a proliferação de significados relacionados à interpretação de acontecimentos convulsivos. Os monumentos não são os símbolos de liberdade que muitas vezes aparentam ser, mas exatamente o oposto. São sinais de aprisionamento, sufocando a liberdade de expressão, a liberdade de pensamento e a liberdade de recordar. Como supervisores na prisão panóptica da ideologia, gente demais obedece de forma masoquista a sua exigência de submissão.

3. Em seu manto de silêncio, o monumento pode facilmente reprimir contestações. Para aqueles cujos valores eles representam, os monumentos oferecem um espaço tranquilo por meio da familiaridade e da tradição cínica. No monumento, os cúmplices não são sobrecarregados com a alienação que se origina na diversidade de opiniões, nem com a ansiedade das contradições morais. Estão a salvo da perturbação causada pela reflexão. Os monumentos são as casamatas ideológicas definitivas - as manifestações concretas da mentalidade de fortificação.

Critical Art Ensemble


Na foto, estátua em homenagem ao bandeirante Borba Gato: assassino, estuprador, símbolo da violência e da falta de caráter - como quase todos os bandeirantes. São Paulo é um estado que homenageia e exalta os bandeirantes em estátuas, monumentos, nomes de ruas, avenidas e estradas; em seu próprio hino: "Norte - Sul - Este - Oeste / em 'bandeira' ou 'monção', / doma os índios bravios". O enorme Borba Gato fica na zona sul da capital, entre a Granja Julieta e Santo Amaro, próxima ao Jardim Ângela e ao Capão Redondo. Capataz de arma em punho, genocida, o capitão do mato ainda vivo: sempre de olho no povo pobre. Por tudo isso, quando nos deparamos com um monumento pixado, queimado, mijado, cuspido, depredado ou destruído, entendemos muito bem a motivação de quem o fez, ainda que possa tê-lo feito de forma puramente instintiva.



DOWNLOAD: DR. LONNIE SMITH - RISE UP! - 2009
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CRONOLOGIA DE NOTÍCIAS
  • 26.05.2009. Sarkozy inaugura base militar francesa nos Emirados Árabes (+)
  • 26.05.2009. Integrante do alto escalão da Al Qaeda está preso no Brasil (+)
  • 27.05.2009. Alerta de bomba atrasou voo da Air France em Buenos Aires (+)
  • 01.06.2009. Voo Rio-Paris da Air France some no Atlântico com 228 a bordo (+)



DOWNLOAD: CONSCIOUS RAGGA 1 - VBR
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DOWNLOAD: CONSCIOUS RAGGA 2 - 256 Kbps
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DOWNLOAD: CONSCIOUS RAGGA 3 - VBR
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Imagens, milhões de imagens, eis o que eu devoro... Já procurou abandonar esse vício com morfina?

William Burroughs


DOWNLOAD: THE RESIDENTS -
- COMMERCIAL ALBUM - 25th ANNIVERSARY EDITION - 1980


Sim, meu caro, é pelas crianças que meu coração mais se interessa neste mundo. Quando me ponho a examiná-las, e vejo nessas criaturinhas o gérmen de todas as virtudes, de todas as energias que logo haverão de lhe ser tão necessárias; quando descubro na sua pertinácia a gutura, inteireza e solidez de caráter; quando verifico na sua petulância, e até nas suas astúcias, o humor jovial e a agilidade para saltar por cima dos perigos do mundo; tudo isto de modo tão incorrupto, tão íntegro... E pensar que, caríssimo, logo a eles, que são nossos iguais, tratamos como se fossem nossos vassalos. Não, eles não devem ter vontades! Nós não temos nós as nossas? E onde reside nosso privilégio? No fato de sermos mais velhos e sensatos?!

Goethe


DOWNLOAD: ROY LEE JOHNSON AND THE VILLAGERS - 1973 - 320 Kbps
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THEREMIN - AN ELECTRONIC ODYSSEY







Documentário sobre o inventor russo León Theremin e sua principal invenção: o Theremin. O filme traz depoimentos de Robert Moog, Brian Wilson e Clara Rockmore, dentre outros. Disponível para download via torrent abaixo, com legendas em espanhol embutidas
.










DOWNLOAD FILM TORRENT: THEREMIN - AN ELECTRONIC ODYSSEY
- Steven M. Martin - 1994 - 83 min. - 738 Mb .avi -


Sobre seu rosto, uma sucessão de imagens da história do homem do século 20. A Segunda Guerra Mundial, a chegada à Lua. Burroughs com um terno negro e um chapéu. Uma figura sinistra.

Pouco antes de sua morte, dizia adorar apenas os gatos que circulavam por sua casa e pensava profundamente sobre caviar.

Sentia horror por uma sociedade que criava estado policial para controlar o desejo de fumar um cigarro no trabalho, bar e restaurante. Duvidava da qualidade de vida. Tinha fé apenas em si mesmo.

Aqueles répteis asquerosos, dedos-duros do congresso, andam falando imbecilidades sobre uma américa livre de drogas até o ano 2001. Perspectiva deprimente!

É claro que não estão incluídos álcool e cigarros, cujo consumo vai aumentar vertiginosamente. Como se pode ter um estado livre de drogas? Simples. Uma operação pode remover os receptores de drogas do cérebro.

Quem se recusar a fazer a cirurgia será privado de todos os seus direitos. Eles não vão poder alugar casa, os restaurantes e bares vão se negar a atendê-los. Não terão passaporte, nem benefícios sociais, nem cobertura médica, nem direito de comprar armas de fogo.

Como odeio os que se dedicam a gerar conformismo. Com que objetivo? Imagine a banalidade estéril de uma américa livre de drogas.

Nada de drogados, apenas bons e decentes americanos de vida limpa, de uma costa brilhante à outra. Toda a área da dissensão extirpada, como um furúnculo.

Nada de favelas. Nada de regiões de operações clandestinas vagas. Nada de nada. Ali fora, nas ruas impiedosas do meio-dia. Nada de cartas.

Até que ponto será bom ter conformismo total? Que lugar vai sobrar para a singularidade? E a personalidade? E você e eu?

William Burroughs
(texto & pintura)



DOWNLOAD: BOSCOE - 1973 - 160 Kbps







DOWNLOAD: PHILIP COHRAN AND THE ARTISTIC HERITAGE ENSEMBLE -
- THE MALCOLM X MEMORIAL (A TRIBUTE IN MUSIC) - 1968 - 192 Kbps

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O CHORO DE ÁFRICA



O choro durante séculos
nos seus olhos traidores pela servidão dos homens
no desejo alimentado entre ambições de lufadas românticas
nos batuques choro de África
nos sorrisos choro de África
nos sarcasmos no trabalho choro de África

Sempre o choro mesmo na vossa alegria imortal
meu irmão Nguxi e amigo Mussunda
no círculo das violências
mesmo na magia poderosa da terra
e da vida jorrante das fontes e de toda a parte e de todas as almas
e das hemorragias dos ritmos das feridas de África

e mesmo na morte do sangue ao contato com o chão
mesmo no florir aromatizado da floresta
mesmo na folha
no fruto
na agilidade da zebra
na secura do deserto
na harmonia das correntes ou no sossego dos lagos
mesmo na beleza do trabalho construtivo dos homens

o choro de séculos
inventado na servidão
em histórias de dramas negros almas brancas preguiças
e espíritos infantis de África
as mentiras choros verdadeiros nas suas bocas

o choro de séculos
Onde a verdade violentada se estiola no círculo de ferro
da desonesta forca
sacrificadora dos corpos cadaverizados
inimiga da vida

fechada em estreitos cérebros de máquinas de contar
na violência
na violência
na violência

O choro de África é um sintoma

Nós temos em nossas mãos outras vidas e alegrias
desmentidas nos lamentos falsos de suas bocas - por nós!
E amor
e os olhos secos.


Agostinho Neto




DOWNLOAD: MOMBASA - AFRICAN RHYTHMS & BLUES 2 -1976 - 160 Kbps
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SUBDESENVOLVIMENTO


Os países pobres são subdesenvolvidos não por razões naturais - pela força das coisas - mas por razões históricas - pela força das circunstâncias. Circunstâncias históricas desfavoráveis, principalmente o colonialismo político e econômico que manteve estas regiões à margem do processo da economia mundial em rápida evolução.

Na verdade, o subdesenvolvimento não é a ausência de desenvolvimento, mas o produto de um tipo universal de desenvolvimento mal conduzido. É a concentração abusiva de riqueza - sobretudo neste período histórico dominado pelo neocolonialismo capitalista que foi o fator determinante do subdesenvolvimento de uma grande parte do mundo: as regiões dominadas sob a forma de colônias políticas diretas ou de colônias econômicas.

Esta tremenda desigualde social entre os povos divide economicamente o mundo em dois mundos diferentes: o mundos dos ricos e o mundo dos pobres, o mundo dos países bem desenvolvidos e industrializados e o mundo dos países proletários e subdesenvolvidos. Este fosso econômico divide hoje a humanidade em dois grupos que se entendem com dificuldade: o grupo dos que não comem, constituido por dois terços da humanidade, e que habitam as áreas subdesenvolvidas do mundo, e o grupo dos que não dormem, que é o terço restante dos países ricos, e que não dormem com receio da revolta dos que não comem.

Ora, o problema do subdesenvolvimento não é exclusivo destes países; é antes um problema universal, que só pode ter soluções igualmente em escala universal. Viver na opulência, num mundo em que 2/3 estão mergulhados na miséria, não é apenas perigoso, é um crime. A tensão social na qual se vive hoje é, na maior parte das vezes, o produto desta conhecida injustiça social, já que os povos dominados tomaram consciência da realidade sócio-econômica do mundo.

Cada vez se pergunta com mais insistência se desenvolver-se significa desumanizar-se, nesta frenética busca de riqueza, de acordo com a fórmula preconizada pelo ocidente de maximizar os lucros em vez de maximizar as energias mentais que enriquecem com mais rapidez a vida dos homens e podem dar-lhes muito mais felicidade.

Josué de Castro



DOWNLOAD: VOLUME 10 - HIP-HOPERA - 1994 - 192 Kbps
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Essa noite me sinto envenenado, mijado, usado, gasto até o osso. Acho que a multidão, aquela multidão, a humanidade, que sempre foi difícil pra mim, aquela multidão está ganhando afinal. Acho que o grande problema é que tudo é uma performance repetida pra eles. Não há novidade neles. Nem mesmo o menor dos milagres. Apenas se arrastam sobre mim. Se um dia eu pudesse ver UMA pessoa fazendo ou dizendo algo incomum me ajudaria a seguir em frente. Mas são rançosos, bolorentos. Não há emoção. Olhos, ouvidos, vozes, seios, pernas, mas... nada. Congelam-se dentro de si mesmos e se enganam fingindo que estão vivos.


Charles Bukowski




DOWNLOAD: JOÃO DONATO - QUEM É QUEM - 1973 - VBR
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23 DE MAIO. Levantei de manhã triste porque estava chovendo. O barraco está numa desordem horrível. É que eu não tenho sabão para lavar as louças. Digo louça por hábito. Mas é as latas. Se tivesse sabão eu ia lavar as roupas. Eu não sou desmazelada. Se ando suja é devido a reviravolta da vida de um favelado. Cheguei a conclusão que quem não tem de ir pro céu, não adianta olhar pra cima. É igual a nós que não gostamos da favela, mas somos obrigados a residir na favela.

Fiz a comida. Achei bonito a gordura frigindo na panela. Que espetaculo deslumbrante! As crianças sorrindo vendo a comida ferver nas panelas. Ainda mais quando é arroz e feijão, é um dia de festa para eles. Antigamente era a macarronada o prato mais caro. Agora é o arroz e feijão que suplanta a macarronada. São os novos ricos. Passou para o lado dos fidalgos. Até vocês, feijão e arroz, nos abandona! Vocês que eram os amigos dos marginais, dos favelados, dos indigentes. Vejam só. Até o feijão nos esqueceu. Não está ao alcance dos infelizes que estão no quarto de despejo. Quem não nos despresou foi o fubá. Mas as crianças não gostam de fubá. Quando puis a comida o João sorriu. Comeram e não aludiram a cor negra do feijão. Porque negra é a nossa vida. Negro é tudo que nos rodeia.

Nas ruas e casas comerciais já se vê as faixas indicando os nomes dos futuros deputados. Alguns nomes já são conhecidos. São reincidentes que já foram preteridos nas urnas. Mas o povo não está interessado nas eleiçoes, que é o cavalo de troia que aparece de quatro em quatro anos.

O céu é belo, digno de contemplar porque as nuvens vagueiam e formam paisagens deslumbrantes. As brisas suaves perpassam conduzindo os perfumes das flores. E o astro rei sempre pontual para despontar-se e recluir-se. As aves percorrem o espaço demonstrando contentamento. A noite surge as estrelas citilantes para adornar o céu azul. Há várias coisas belas no mundo que não é possível descrever-se. Só uma coisa nos entristece: os preços, quando vamos fazer compras. Ofusca todas as belezas que existe.

A Theresa irmã da Meyri bebeu soda. E sem motivo. Disse que encontrou o bilhete de uma mulher no bolso do seu amado. Perdeu muito sangue. Os médicos diz que se ela sarar ficará imprestável. Tem dois filhos, um de 4 anos e outro de 9 meses.

Carolina Maria de Jesus



DOWNLOAD: PAULO CÉSAR PINHEIRO
- O LAMENTO DO SAMBA - 2003 - 160 Kbps

CHAPPAQUA



"Meu nome é Russel Harwick. Começo este diário como um registro de minhas experiências enquanto sofria de alcoolismo. Comecei a beber de forma moderada aos 14 anos nas férias com os amigos. Aos 15 sofria de delirium tremens (ataques do alcoolismo). Aos 19, descobri que maconha, haxixe, cocaína ou heroína afastavam-me do álcool por um período. Meu padrão se tornou um aterrorizante labirinto de álcool e de drogas. Finalmente fui introduzido aos alucinógenos: peyote, psilocibina e LSD 25". Créditos iniciais de Chappaqua, clássico junkie franconorteamericano de 1966 dirigido por Conrad Rooks, que também vive autobiograficamente o protagonista Russel Harwick. Hipnótico do começo ao fim, o filme tem participações dos escritores William Burroughs, Allen Ginsberg e Moondog, do músico Ornette Coleman e do guru Swami Satchidananda, dentre outras. A trilha sonora é de Ravi Shankar com supervisão de Philip Glass. Reproduzimos acima um pequeno trecho que conta com performance da banda The Fugs. O filme completo está disponível abaixo para download via torrent já com legendas em português. A trilha feita por Ornette Coleman e seu trio em 1965 para o filme, porém não utilizada, também está disponível para download abaixo. Sua banda contou ainda com Pharoah Sanders no sax tenor e a orquestra de Joseph Tekula.



DOWNLOAD FILM TORRENT: CHAPPAQUA
- Conrad Rooks - 1966 - 82 min - 700 Mb .avi -



DOWNLOAD: ORNETTE COLEMAN - CHAPPAQUA SUITE - 1965 - 256 Kbps
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Estágios do consumo regular da Cannabis, elencados em 1966 pelo antropólogo Howard Becker:
  1. aprender a inalar da maneira correta, isto é, de forma que a substância seja plenamente absorvida;

  2. aprender a reconhecer os efeitos, que não seriam muito evidentes à primeira vista e que devem ser associados ao uso da substância;

  3. aprender a considerar os efeitos como algo prazeroso e a lidar com eles de maneira a obter o melhor resultado possível em termos do prazer procurado;

  4. aprender a enfrentar as formas de controle social que desaprovam tal hábito, através do desenvolvimento de estratégias para obtenção da erva, de garantir segredo em face de não-consumidores e de justificar, a si mesmo, o próprio comportamento diante da condenação moral.



DOWNLOAD: JAH RUBY - DREAD AFFAIRS - 1977 - VBR > 224 Kbps




1968 POSTERS



DOWNLOAD: MUDDY WATERS - ELECTRIC MUD - 1968 - 320 Kbps
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Dou o nome de Estado ao lugar em que todos, bons e maus, gostam de veneno. Vede, pois, esses que estão a mais! Adquirem riquezas e só conseguem tornar-se mais pobres. Esses impotentes querem o poder e, antes de todo o resto, a alavanca do poder, ou seja, muito dinheiro! Vede-os trepar, esses ágeis macacos! Sobem uns por cima dos outros e empurram-se para a lama e para o abismo.

Friedrich Nietzsche







DOWNLOAD: OLIVER SAIN - BLUE MAX - 1975 - 320 Kbps
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É necessário ter-se nascido numa sociedade civilizada para se ter a resignação de viver nela toda a vida sem nunca sentir o desejo de libertar-se dessa esfera de convenções fátuas, de venenosas mentiras consagradas pelo uso de ambições mesquinhas e partidarismos acanhados, de diversas formas de falta de sinceridade, em uma palavra, de toda a loucura da vaidade que gela o coração, corrompe a inteligência, e tão insensatamente se chama vida civilizada. Nascido e criado fora desta sociedade, impossível se me torna aceitar essa cultura em doses fortes, sem experimentar logo a necessidade imediata de fugir para muito longe das suas complicações e absurdos.

Máximo Gorki



DOWNLOAD: HYSEAR DON WALKER
- COMPLETE EXPRESSIONS VOL. 2 - 1972 - 192 Kbps



A FABRICAÇÃO DO PÂNICO CLIMÁTICO


Quando se fala do hipotético aquecimento global pretende-se seguramente meter medo. Até seria desejável que a Terra aquecesse. Com efeito, isso nos traria imensas economias tanto de energia para climatização, como do petróleo bruto e dos seus derivados. Por outro lado, seriam ganhas largas extensões de terra cultivável em direção às regiões subpolares. Foi o caso entre os anos 1930 e 1960 (período do Ótimo Climático Contemporâneo). Nessa altura, as explorações agrícolas do norte do Canadá e da Escandinávia deslocaram-se mais para Norte. Nos anos 1970, com o regresso do frio, voltaram a retroceder para Sul. O mesmo aconteceu na África subsaariana onde os criadores de gado se deslocaram primeiro para Norte e depois regressaram ao Sul quando a seca estalou nos anos 1970. Durante o período quente, as chuvas tropicais eram mais abundantes. O tema do "global warming" é digno de figurar no livro das Imposturas Intelectuais de Alan Sokal e Jean Bricmont. O "global warming" e as "climate changes" estão de tal maneira bem embrulhadas que não é fácil desmontar esta impostura científica.

Quase toda a gente tem fé na curva da temperatura global publicada todos os anos pela OMM (Organização Meteorológica Mundial) e o IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change). Esta curva é apenas uma média das temperaturas medidas em 7000 estações meteorológicas do planeta, tratadas na Universidade de East Anglia, em Londres, sob a direção de Philipp Jones. O aumento seria de 0,6ºC desde 1860 até aos nossos dias, ou seja, a diferença de temperaturas que se observa à escala média anual entre quaisquer duas cidades de Portugal. Por outro lado, como falar em média à escala global misturando temperaturas marinhas, continentais, urbanas e sobretudo temperaturas de regiões que arrefecem com a de outras que aquecem? Por exemplo, o Ártico ocidental (a norte do Canadá) arrefeceu e o Ártico a norte do Mar da Noruega aqueceu. Qual é então a verdadeira situação do Ártico? De aquecimento ou de arrefecimento? Não é possível afirmar com segurança que a Terra está aquecendo.

Não se deve atribuir aos modelos virtudes "mágicas" tanto mais que eles só dão uma visão muito incompleta e deformada da realidade meteorológica. Em particular, eles não têm em conta a circulação geral da atmosfera, da sua organização e do seu movimento. Para estes modelos, as descontinuidades, presentes por todo o lado na natureza, não são simplesmente tomadas em consideração. Os modelos utilizados para predição climática são fundados nos mesmos princípios que os utilizados para a previsão meteorológica. Ora, estes últimos erram constantemente, como toda a gente sabe. Eles são incapazes de prever tempestades de neve como as que se verificaram no inverno de 2006 por toda a Europa. E muito menos, não foram capazes de prever a queda de neve do dia 29 de Janeiro de 2006 em Portugal, acontecimento que não se verificava há 50 anos!

Insiste-se sobre um pretendido consenso entre os climatologistas quando isso não existe. Além disso, existem vários tipos de "climatologistas". Veja-se o IPCC, apresentado como a autoridade na matéria. Na realidade, trata-se de um grupo intergovernamental, isto é, a nomeação dos seus membros é política e não responde a critérios científicos. Além disso, a grande maioria dos seus membros não é de climatologistas. Têm conhecimentos científicos limitados sobre o clima. Após o aparecimento da informática, numerosos daqueles que se autoproclamam "climatologistas" são na realidade informáticos-modeladores, que dedicam de longe a sua preferência à estatística, sem se preocuparem com os laços físicos reais.

Culpar os gases com efeito de estufa dá uma visão muito simplista do clima, enquanto outros fatores são bastante mais importantes. Em particular, aqueles que determinam a dinâmica da atmosfera, as transferências meridionais do ar e da energia e, para ser mais simples, as transferências de ar frio e de ar quente. Cada um é capaz de observar que a temperatura é função destas bruscas alterações, e que ela não evolui de maneira linear. O importante é primeiramente saber porquê e como as massas de ar frio se formam e se deslocam; porquê elas substituem e são substituídas pelo ar quente. Por outro lado, no longo prazo, a variação depende da atividade solar (manchas solares, magnetismo, erupção e vento solar), das projeções vulcânicas, dos parâmetros astronômicos, etc. Como pretender que a sua responsabilidade no clima possa ser posta em evidência nos modelos que não tomam simplesmente em consideração o conjunto destes parâmetros? O efeito de estufa é, portanto, totalmente marginal, se não mesmo insignificante, tanto mais que o principal efeito de estufa não é realizado pelo CO2 ou pelo CH4, mas pelo vapor de água.

A evolução dos climas regionais seguem evoluções fortemente dessemelhantes. Além disso, é bastante revelador verificar que, na confissão do próprio IPCC, os modelos são incapazes de reconstituir estas variações regionais! No seu segundo relatório de avaliação, de 1996, o IPCC escreveu: "Os valores regionais das temperaturas poderiam ser sensivelmente diferentes da média global, mas ainda não é possível determinar com precisão as suas flutuações". Isto significa que os modelos do IPCC seriam capazes de dar um valor médio sem conhecer os valores regionais que permitem estabelecer precisamente esta média! Isto não é sério! No Atlântico Norte, observa-se um arrefecimento na parte oeste (Canadá, Estados Unidos a leste das Montanhas Rochosas), enquanto na Europa ocidental se observa um aquecimento, nomeadamente na Escandinávia. Os recordes de calor e de frio são conseqüentemente batidos. Mas só se ouve falar nos de calor… Por exemplo, o Canadá sofreu a pior tempestade de neve da sua história em 1998 e a Mongólia conheceu dois invernos sucessivos de tal forma rigorosos que o estado teve de pedir ajuda internacional.

Na realidade, o problema dito do clima é confundido com o da poluição, dois domínios, contudo, distintos que só serão bem tratados, um e outro, quando forem dissociados. Esta confusão serve igualmente de pretexto para impor uma restrição à atividade humana, considerada erradamente como a origem do aquecimento climático. A relação de interesses que se estabeleceu entre certos laboratórios, várias instituições internacionais e certos homens políticos, impôs a noção de aquecimento global. Finalmente, o aquecimento climático reveste cada vez mais um caráter de manipulação que parece verdadeiramente uma impostura "científica" e cujas primeiras vítimas são os climatologistas que não recebem os financiamentos dirigidos para a corte de "climatocratas" do IPCC.

Rui G. Moura, 2006











O mundo é somente o espelho de nós mesmos. Se alguma coisa vos faz vomitar, vomitem, senhores, porque não são mais que as vossas próprias caras doentes o que estão a ver.

Henry Miller








DOWNLOAD: SMUT PEDDLERS
- PORN AGAIN (REVISITED) - 2001 (2006) - VBR>224 Kbps
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BOMB IT!

DOWNLOAD FILM TORRENT: BOMB IT
- John Reiss - 2007 - 94 min. - 693 Mb .avi -

Documentário sobre graffiti rodado em diversas cidades do mundo, como São Paulo, Paris, Tijuana, Berlin, Amsterdam, Cape Town, Barcelona, New York e Tokyo.


21 DE MAIO
. Passei uma noite horrível. Sonhei que eu residia numa casa residivel, tinha banheiro, cozinha, copa e até quarto de criada. Eu ia festejar o aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu ia comprar-lhe umas panelinhas que há muito ela vive pedindo. Porque eu estava em condições de comprar. Sentei na mesa para comer. A toalha era alva ao lirio. Eu comia bife, pão com manteiga, batata frita e salada. Quando fui pegar outro bife despertei. Que realidade amarga! Eu não residia na cidade. Estava na favela. Na lama, as margens do Tietê. E com 9 cruzeiros apenas. Nao tenho açucar porque ontem eu saí e os meninos comeram o pouco que eu tinha.

Quem deve dirigir é quem tem capacidade. Quem tem dó e amisade ao povo. Quem governa o nosso país é quem tem dinheiro, quem não sabe o que é fome, a dor, a aflição do pobre. Se a maioria revoltar-se, o que pode fazer a minoria? Eu estou ao lado do pobre, que é o braço. Braço desnutrido. Precisamos livrar o paiz dos politicos açambarcadores.

Eu ontem comi aquele macarrão do lixo com receio de morrer, porque em 1953 eu vendia ferro lá no Zinho. Havia um pretinho bonitinho. Ele ia vender ferro lá no Zinho. Ele era jovem e dizia que quem devia catar papel são os velhos. Um dia eu ia vender ferro quando parei na Avenida Bom Jardim. No Lixão, como é denominado o local. Os lixeiros haviam jogado carne no lixo. E ele escolhia uns pedaços. Disse-me:

- Leva, Carolina. Dá pra comer.

Deu-me uns pedaços. Para não maguá-lo, aceitei. Procurei convencê-lo a não comer aquela carne. Para comer os pães duros ruidos pelos ratos. Ele disse-me que não. Que há dois dias não comia. Acendeu o fogo e assou a carne. A fome era tanta que ele não poude deixar assar a carne. Esquentou-a e comeu. Para não presenciar aquele quadro, saí pensando: faz de conta que eu não presenciei esta cena. Isto não pode ser real num paiz fertil igual ao meu. Revoltei contra o tal Serviço Social que diz ter sido criado para reajustar os desajustados, mas não toma conhecimento da existencia infausta dos marginais. Vendi os ferros no Zinho e voltei para o quintal de São Paulo, a favela.

No outro dia encontraram o pretinho morto. Os dedos do seu pé abriram. O espaço era de vinte centimetros. Ele aumentou-se como se fosse de borracha. Os dedos do pé parecia leque. Não trazia documentos. Foi sepultado como um Zé qualquer. Ninguém procurou saber seu nome. Marginal não tem nome.


De quatro em quatro anos muda-se os politicos e não soluciona a fome que tem sua matriz na favela e as sucursaes nos lares dos operarios. Quando eu fui buscar agua vi uma infeliz caida perto da torneira porque ontem dormiu sem jantar. É que ela está desnutrida. Os medicos que nós temos na politica sabem disto.

Achei um cará no lixo, uma batata doce e uma batata solsa. Cheguei na favela os meus meninos estavam roendo um pedaço de pão duro. Pensei: para comer estes pães era preciso que eles tivessem dentes eletricos.

Não tinha gordura. Puis o cará e a batata. E agua. Assim que ferveu eu puis o macarrão que os meninos cataram no lixo. Os favelados estão aos poucos convencendo-se que para viver precisam imitar os corvos. Eu não vejo eficiencia no Serviço Social em relação ao favelado. Amanhã não vou ter pão. Vou cozinhar a batata doce.

Carolina Maria de Jesus


DOWNLOAD: THE NITE-LITERS - DIFFERENT STROKES - 1972 - 256 Kbps
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Por simples ignorância e equívoco, muita gente, mesmo neste país relativamente livre, se deixa absorver de tal modo por preocupações artificiais e tarefas superfluamente ásperas, que não pode colher os frutos mais saborosos da vida. É bem evidente a vida mesquinha e vil que muitos levam, digo porque a experiência tem-me aguçado a visão para os que vivem na corda bamba, tentando negócios para escaparem às dívidas — esse antiqüíssimo atoleiro que os latinos chamavam de aes alienum, o cobre alheio — ainda assim vivendo e morrendo, enterrados pelo dinheiro alheio, sempre prometendo pagar, jurando pagar amanhã e morrendo hoje insolventes; bajulando por favores, angariando fregueses de mil e um modos desde que não redundem em prisão, mentindo, chaleirando, votando, enredando-se em meia dúzia de palavras corteses ou expandindo-se numa atmosfera de melíflua e vaporosa generosidade a fim de persuadirem o vizinho a deixá-los engraxarem seus sapatos, escovarem seu chapéu e casaco, limparem sua carruagem, ou ainda carregarem para ele compras da mercearia; fazendo-se de doentes de modo a economizarem algo para o dia em que estejam de fato doentes, algo a ser guardado numa velha cômoda ou armazenado atrás do reboco, melhor ainda, na bancada de tijolos, não importa onde, não importa se muito ou pouco. Os homens, em sua maioria, levam vidas de sereno desespero. O que se chama resignação é desespero crônico.

Henry David Thoreau
em Walden ou A Vida nos Bosques


DOWNLOAD: SHADES OF JOY - MUSIC OF EL TOPO - 1970 - 192 Kbps
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AS OPERAÇÕES DA MENTIRA

O autor de uma mentira tem determinada interpretação da realidade, e elabora uma outra interpretação para seus interlocutores. Denominamos operações da mentira os diferentes tipos de transformação da realidade que ele efetua.
Vamos distinguir os três tipos principais:

1. As supressões, que consistem em fazer acreditar que não existe uma coisa que existe.



2. As adições, que consistem em fazer acreditar na existência de coisas que não existem. Poderíamos chamar também de invenções.



3. As deformações, que consistem em falar de uma coisa que existe, mas caracterizando-a de modo falacioso.


Guy Durandin
em As Mentiras na Propaganda e na Publicidade




DOWNLOAD: JORGE BEN - A TÁBUA DE ESMERALDA - 1974 - 320 Kbps
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Não há nada a lamentar sobre a morte, assim como não há nada a lamentar sobre o crescimento de uma flor. O terrível não é a morte, mas as vidas que as pessoas levam ou não levam até sua morte. Não reverenciam as próprias vidas, mijam em suas vidas. As pessoas as cagam. Idiotas fodidos. Concentram-se demais em foder, cinema, dinheiro, família, foder. Suas mentes estão entupidas de algodão. Engolem Deus sem pensar, engolem o país sem pensar. Acabam deixando que os outros pensem por elas. Suas mentes estão entupidas de bosta. São feios, falam feio, caminham feio. Toque pra elas a maior música de todos os tempos e elas não conseguem ouvi-la.

Charles Bukowski




DOWNLOAD: THE PAZANT BROS & THE BEAUFORT EXPRESS
- LOOSE AND JUICY - 1975 - 192 Kbps

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Quem quer se livrar de uma pressão intolerável necessita de haxixe.

Friedrich Nietzsche



DOWNLOAD: CHRIS MACRO PRESENTS MACRO DUBPLATES VOL. 1 -
- KING TUBBY Vs WU TANG (&FRIENDS) - 2009 - 320 Kbps

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MANDA BALA



Manda Bala é um documentário feito no Brasil que procura estabelecer uma relação entre a corrupção política e a violência urbana, com especial ênfase na cidade de São Paulo. Dirigido pelo norteamericano Jason Kohn, filho de brasileira com argentino e ex-morador de São Paulo, o filme traça um paralelo entre o desvio fraudulento de 2 bilhões de dólares de projetos que fomentariam o desenvolvimento da Amazônia e a paranoia que assola os endinheirados em terras paulistanas. Pra quem mora em São Paulo não há nada de muito novo: a capital mundial dos sequestros, as maiores frotas de carros blindados e helicópteros particulares do mundo, o medo generalizado, a miséria e o alto luxo coexistindo lado a lado. A análise política e social, trazida até com sarcasmo, é bem simplista, sabe-se que a questão é muito mais complexa. Infelizmente o que se vê é apenas uma pequena parte das barbáries que acontecem a cada instante Brasil afora, barbaridades muitas vezes bem piores do que as que são retratadas. O filme apresenta linguagem ágil, herdada por Kohn de Errol Morris, com quem trabalhara anteriormente. A trilha traz ótimos momentos distintos com Tom Zé, Caetano Veloso e Os Fantasmas interpretando Tim Maia. Manda Bala foi exibido em quase todo o mundo, tendo ganho o Grand Prize do júri para documentários em Sundance, dentre outros prêmios, e é veladamente censurado no Brasil, onde o diretor tem medo de exibi-lo, pois foi ameaçado. A imprensa brasileira, sempre parcial, omissa e macomunada, quase ignorou o filme, que mal foi mencionado. No Youtube, disponibilizado com legendas em português, menos de 100 pessoas assistiram a ele por completo. Disponível em 9 partes, reproduzimos acima uma delas. O torrent abaixo traz legendas em português não embutidas.


DOWNLOAD FILME TORRENT: MANDA BALA
- Jason Kohn - 2007 - 86 min - 700 Mb .avi -

Clique aqui se preferir assisti-lo completo via Vimeo.


É evidente que a polícia fomenta criminosos, cria marginais, é evidente que a polícia alimenta isso tudo, não somente a polícia, mas também a imprensa, que é omissa e corrupta. Diz o meu pai, que é um motorista de caminhão, homem sofrido, que não tem nem o primário feito mas tem muita sensibilidade, basta dizer que toca todos os instrumentos de corda por música e sabe lidar com orquídeas. Ele diz o seguinte: "pessoas de boa índole não podem ser profissionais de polícia". Há pessoas no Brasil que são roubadas e não procuram a polícia porque a polícia analisará o que poderá ainda roubar dessa pessoa. A corrupção policial, a incompetência policial, a nossa relapsia policial, está tudo provado. Agora existe uma onda de seqüestros nessa cidade. Hoje abri um jornal que falava de quatro seqüestros. Naturalmente de quatro que podem ser falados. Onde está essa gloriosa polícia dos homens de ouro? Onde está esse instrumento policial caríssimo que o contribuinte brasileiro sustenta? Onde está?

João Antônio, 1975


DOWNLOAD: BLUE MITCHELL - BANTU VILLAGE - 1969 - 320 Kbps

Ô JOSUÉ, NUNCA VI TAMANHA DESGRAÇA


A fome é, conforme tantas vezes tenho afirmado, a expressão biológica de males sociológicos. Está intimamente ligada com as distorções econômicas, a que dei, antes de ninguém, a designação de "subdesenvolvimento".

A fome é um fenômeno geograficamente universal, a cuja ação nefasta nenhum continente escapa. Toda a terra dos homens foi, até hoje, a terra da fome. As investigações científicas, realizadas em todas as partes do mundo, constataram o fato inconcebível de que dois terços da humanidade sofre, de maneira epidêmica ou endêmica, os efeitos destruidores da fome.

A fome não é um produto da superpopulação: a fome já existia em massa antes do fenômeno da explosão demográfica do pós-guerra. Apenas esta fome que dizimava as populações dos países pobres era escamoteada, era abafada, era escondida. Não se falava do assunto que era vergonhoso: a fome era tabu.


MAPA DAS PRINCIPAIS CARÊNCIAS EXISTENTES
NAS DIFERENTES ÁREAS ALIMENTARES DO BRASIL

Existem duas maneiras de morrer de fome: não comer nada e definhar de maneira vertiginosa até o fim, ou comer de maneira inadequada e entrar em um regime de carências ou deficiências específicas, capaz de provocar um estado que pode também conduzir à morte. Mais grave ainda que a fome aguda e total, devido às suas repercussões sociais e econômicas, é o fenômeno da fome crônica ou parcial, que corrói silenciosamente inúmeras populações do mundo.

Josué de Castro, autor de Geografia da Fome



DOWNLOAD: LOS SEBOSOS POSTIZOS
- AO VIVO NO SESC POMPÉIA (+BONUS TRACKS) - 2004
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DOWNLOAD: BLACK HEAT - 1972 - 192 Kbps
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Nenhum avanço na saúde, nenhum abrandamento nas maneiras, nenhuma reforma ou revolução trouxe a humanidade um milímetro mais perto da igualdade.

George Orwell





DOWNLOAD: GERARD LEVECQUE & CLAUDE ROMAT -
AFRICADELIC'S THE NAME VOL. 2 - 197? - 320 Kbps
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Para destruir, aniquilar definitivamente um homem, infligir-lhe as punições mais terríveis, diante das quais o assassino mais feroz tremeria de pavor, basta apenas lhe atribuir um trabalho de caráter total e inteiramente inútil e irracional.

Fiódor Dostoiévski



DOWNLOAD: LOU DONALDSON - SAY IT LOUD! - 1968 - 192 Kbps




NOSSO-HINO - é exaustiva a quantidade de vezes por dia que se ouve o nosso-hino: é uma perseguição auditiva: essa musiquinha de terceira categoria é uma das obsessões dos nacionalistas de carteirinha, dos ingênuos, dos militares, das esquerdas patriotas e de todo aquele para quem esse mundo de fantasia fascista (fantasia que contribui fundamentalmente para garantir a produção, o consumo e a reprodução geral danação) existe como verdade-realidade

Alberto Lins Caldas






DOWNLOAD: CONTROL MACHETE - MUCHO BARATO - 1997 - 192 Kbps
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REGISTROS DE USOS SECULARES DA CANNABIS NO BRASIL



No Brasil, a cannabis sativa foi pango, nas referências mais antigas, e ainda fumo de Angola, liamba, riamba e diamba. Este último nome predominou sobre pango e fumo de Angola, no século XIX, e cedeu espaço, no século XX, para liamba, até ser definitivamente vencido por maconha. Foi ainda denominada erva-do-diabo, particularmente na imprensa diária, quando das campanhas de profilaxia após os anos 40.

Uma das mais antigas referências do uso ritualizado da maconha, anotado por Luiz Mott, dá conta de que, nas Minas Gerais de 1777, uma mulher de nome Brígida encontrava-se a dançar calundus, fazendo trejeitos e mudanças, dando a cheirar a todos os "circunstantes certo ingrediente (...) e que ficavam absortos e fora de si, e ensinava Brígida que as almas dos mortos se introduzem nos vivos. Dizia mais que o 'calundu' é o melhor modo de dar graças a deus, convidando todas as pessoas da fazenda a vir ao calundu, e se alguma escusava, lhe dava a cheirar e lhe chegava aos narizes uma erva com a qual ficavam absortos e fora de si e esquecidos das obrigações de católicos e entravam na mesma dança".

Muito tempo depois, em 1905, escreveria o Dr. Pires de Almeida, em seu A libertinagem no Rio de Janeiro, que "homens e mulheres de toda casta, completamente nus, afluiam aos candomblés e no meio de danças convulsionadas, e aos vapores de pango, faziam comemorações aos mortos".

O médico baiano Dr. Rodrigues Dória foi o primeiro autor nacional a escrever um texto unicamente dedicado ao tema do seu consumo popular em ascenção e difusão, em 1915, contando que "os índios amansados aprenderam a usar maconha, vício a que se entregam com paixão, tornando-se hábito inveterado. Fumam também os mestiços (...) entre nós a planta é usada, como fumo ou em infusão, e entra na composição de certas beberagens, empregadas pelos feiticeiros, em geral pretos africanos ou velhos caboclos. Nos candomblés - festas religiosas dos africanos, ou dos pretos crioulos, deles descendentes e que lhes herdaram os costumes e a fé, é empregada para produzir alucinações e excitar os movimentos nas danças selvagens dessas reuniões barulhentas. Em Pernambuco a erva é fumada nos catimbós - lugar onde se fazem os feitiços, e são freqüentados pelos que vão ali buscar a sorte e a felicidade. Em Alagoas, nos sambas e nos batuques, que são danças aprendidas dos pretos africanos, usam a planta, e também entre os que porfiam na colcheia, o que entre o povo rústico consiste em diálogo rimado e cantado em que cada réplica, quase sempre em quadras, começa pela deixa ou pelas palavras do contendor (...) É fumada em quartéis, nas prisões, em agrupamentos ocasionais ou em reuniões apropriadas e nos bordéis".

Bruno César Cavalcanti




DOWNLOAD: WORD SOUND 'AVE POWER - DUB POETS AND DUB - 1983 - 192 Kbps
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TÍTERE






DOWNLOAD: CLAUDIO MEDEIROS, VICTOR M & FRIENDS - ROTATION - 1975 - 192 Kbps
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Eu simplifiquei meu pensamento político a apenas detestar todos os governos existentes. O fato é: ricos são poder, e pobreza é escravidão em toda a Terra.

Henry J. Byron







DOWNLOAD: KING HANNIBAL - TRUTH - 1973 - 320 Kbps
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DOWNLOAD: FURACÃO 2000 - BLACK SOUL DISCOTHEQUE - 1977 - 192 Kbps

ABISMU

DOWNLOAD DE FILME: ABISMU
- ROGÉRIO SGANZERLA - 1977 - 82 min - 269 Mb .rmvb -


Leitor amigo, ponha-se na minha situação: o que fazer diante do arbítrio de incompetência treinada? Eu, que não sou burro, sempre soube que existe um boicote contra meus filmes. Falei demais? Saibam que por idealismo nunca calei-me diante do fato de intuir precocemente as coisas. Serei tão importante e ameaçador assim? Se fui considerado dos mais criativos realizadores do país, por que cuidadosamente não deixam ir às telas... ou seja tenho filmes arquivados há dez anos... que tal leitor? Não seria um boicote armado pelos intelectuais de araque?

Abismu, produção minha com Norma Bengell, Jorge Loredo, Mojica Marins, Wilson Grey, está pronto – cartaz, trailer e tudo – há dois anos – e só passa por iniciativa minha... repito: Serei tão importante assim? Consegui a duras penas lançá-lo em São Paulo...

O pior é que o filme já tem certificado de censura correndo há quase um ano, isto é, daqui a cinco anos terá um ano menos de vida, sua imagem está lá embaixo e nenhum exibidor quer lançá-lo – embora tenha um rolo inteiro de Jimi Hendrix executando "In from the Storm" em Whight – porque já foi dolorosamente "queimado" pelas nossas queridas incompetências treinadas na cidade maravilhosa... O pior de tudo é que foi financiado com recursos próprios. Será Abismu tão importante assim para ser tão ostensivamente retirado de competição?

Pois com Noel e Hendrix ao meu devido lado eu digo: Abismu é o trailer de minha futura obra, sob a égide, invocação, proteção do gênio número um das Américas (que são uma só), ou seja, a ele dedico todos meus planos fixos, travelings e panorâmicas, ao pensador James Marshall Hendrix.

Rogério Sganzerla, 1981


Nota: O baterista que aparece tocando sobre as pedras é Edison Machado.




DOWNLOAD: JIMI HENDRIX - BAND OF GYPSYS - 1970 - VBR>256 Kbps
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Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis coqueiros.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

Carlos Drummond de Andrade


DOWNLOAD: KIDS OST - 1995 - VBR

HUNTER TORRENTS

DOWNLOAD FILM TORRENT:
GONZO: THE LIFE AND WORK OF DR. HUNTER S. THOMPSON
- ALEX GIBNEY - 2007 - 119 min. - 745 Mb .avi -



DOWNLOAD FILM TORRENT:
BUY THE TICKET, TAKE THE RIDE: HUNTER S THOMPSON ON FILM
- TOM THURMAN - 2006 - 73 min. - 699 Mb .avi -



DOWNLOAD FILM TORRENT: BREAKFAST WITH HUNTER
- WAYNE EWING - 2003 - 91 min. - 677 Mb .avi -

VOZ DE SANGUE



Eu sou José Zefanias Machava. Tenho 14 anos e sou natural de Massinga, província de Inhambane. O meu pai era um miliciano que os bandidos mataram quando chegaram a minha casa. Depois de matarem o meu pai me exigiram para mostrar os amigos dele. Eu disse que não sabia quem eram nem onde estavam. Então eles cortaram-me um dedo para eu falar. Tornaram-me a perguntar dos amigos do meu pai e eu repeti a dizer que não sabia. Acabaram-me quatro dedos e eu a dizer que não sabia. Aí zangaram mesmo e cortaram-me uma orelha. Deixaram-me assim mesmo a sangrar e foram embora. Consegui curar com remédios tradicionais, mas esperei um ano até ficar bom. Depois de acabar esse ano, no ano a seguir fui raptado pelos bandidos. Treinei lá na base, aprendi a desmontar arma e a montar. Agora a minha missão era andar a procura de água e de lenha. Um dia desses mandaram-me procurar água. Eu aproveitei, abandonei a lata e fugi. Não sabia onde ia, só andava de qualquer maneira. Assim mesmo cheguei num quartel e apresentei aos soldados. Era em Sinhavuro. Quando me pegaram começaram a perguntar de onde eu vinha. Eu disse que estava a fugir dos bandidos. Logo aqueles soldados disseram para eu ir mostrar onde era. Fui lá com a tropa. Encontramos só uma pessoa, que mataram. Então os soldados levaram aquelas coisas da base e eu fui levado para Inhambane. Investigaram-me, investigaram-me até enviarem-me aqui para o Centro de Lhanguene. Vivo bem aqui. Já estou a estudar na 2a. classe.

do livro Vozes do Sangue



DOWNLOAD: DUKE LUMUMBA - LUMUMBA - 1974 - 256 Kbps
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À guisa de resposta, ele disse que havia lendas prevendo a queda do homem branco por meio de alguma grande catástrofe — fogo, fome, enchente, uma coisa assim.

— Por que não simplesmente pela ambição e ignorância? — aparteei.
— É — disse ele —, o índio acredita que, quando chegar a hora, só os que são fortes e resistentes vão sobreviver. Eles nunca aceitaram nosso modo de vida. Não olham para nós como superiores a eles em nada. Toleram a gente, só isso. Por mais educados que sejam, sempre voltam para a tribo. Só estão esperando a gente morrer, acho.
Fiquei deliciado ao ouvir isso. Seria maravilhoso, pensei comigo, se um dia eles fossem capazes de se levantar em grande número e nos empurrar para o mar, tomar de volta a terra que roubamos deles, destruir nossas cidades ou usá-las como terreiro de festas.


Henry Miller

do livro Pesadelo Refrigerado




DOWNLOAD: THE HEADHUNTERS - SURVIVAL OF THE FITTEST - 1975 - 256 Kbps


O álcool e as mulheres me proporcionam, devo confessar, o único consolo digno. Confio-lhe este segredo, e não tenha receio de valer-se dele. Compreenderá, então, que a verdadeira libertinagem é libertadora, porque não impõe nenhuma obrigação. Na libertinagem só se possui a si próprio; ela permanece, pois, a ocupação perfeita dos grandes apaixonados por sua própria pessoa. É uma selva, sem futuro nem passado, e, sobretudo, sem promessas nem sanção imediata. Os lugares onde ela se exercita são separados do mundo. Deixa-se, ao entrar, tanto o medo quanto a esperança. A conversa não é obrigatória; o que procuram pode ser obtido sem palavras e, muitas vezes, até sem dinheiro. Ah! Eu lhe peço, deixe-me prestar uma especial homenagem às mulheres desconhecidas e esquecidas que me ajudaram. Ainda hoje, mistura-se à lembrança delas algo semelhante a respeito.

Albert Camus


DOWNLOAD: RADIOHEAD - OK COMPUTER - 1997 - 192 Kbps

ONDE ESTÃO OS HOMENS CAÇADOS NESTE VENTO DE LOUCURA


O sangue caindo em gotas na terra
homens morrendo no mato
e o sangue caindo, caindo...
Fernão Dias para sempre na história
da Ilha Verde, rubra de sangue,
dos homens tombados
na arena imensa do cais.
Aí o cais, o sangue, os homens,
os grilhões, os golpes das pancadas
a soarem, a soarem, a soarem
caindo no silêncio das vidas tombadas
dos gritos, dos uivos de dor
dos homens que não são homens,
na mão dos verdugos sem nome.
Zé Mulato, na história do cais
baleando homens no silêncio
do tombar dos corpos.
Aí, Zé Mulato, Zé Mulato.
As vítimas clamam vingança
O mar, o mar de Fernão Dias
engolindo vidas humanas
está rubro de sangue.



- Nós estamos de pé -
Nossos olhos se viram para ti.
Nossas vidas enterradas
nos campos da morte,
os homens do cinco de Fevereiro
os homens caídos na estufa da morte
clamando piedade
gritando p'la vida,
mortos sem ar e sem água
levantam-se todos
da vala comum
e de pé no coro de justiça
clamam vingança...
... Os corpos tombados no mato,
as casas, as casas dos homens
destruídas na voragem
do fogo incendiário,
as vias queimadas,
erguem o coro insólito de justiça
clamando vingança.
E vós todos carrascos
e vós todos algozes
sentados nos bancos dos réus:
- Que fizeste do meu povo?...
- Que respondeis?
- Onde está o meu povo?...
E eu respondo no silêncio
das vozes erguidas
clamando justiça...
Um a um, todos em fila...
Para vós, carrascos,
o perdão não tem nome.
A justiça vai soar,
E o sangue das vidas caídas
nos matos da morte
ensopando a terra
num silêncio de arrepios
vai fecundar a terra,
clamando justiça.
É a chamada da humanidade
cantando a esperança
num mundo sem peias
onde a liberdade
é a pátria dos homens...


Alda do Espírito Santo



DOWNLOAD: TRINITY - SHANTY TOWN DETERMINATION - 1977 - 192 Kbps
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DOWNLOAD FILM TORRENT: WATTSTAX
- MEL STUART - 1972 - 102 min. - 698Mb .avi -
+INFO

A MONSTRUOSA MÁQUINA DE TORTURA



LIBERDADE - entregamos sem nenhuma reação todos os aspectos da nossa liberdade (que é feita de minúsculos fragmentos, de frágeis dobradiças, de memórias sutis) em nome de qualquer coisa. para melhorar “a questão da violência”, as câmeras em todas as ruas, em todos os lugares públicos; para garantir “a população e a coisa pública”, soldados na rua; para “combater o crime”, assassinatos, torturas, violência, medo, mentiras e impunidade.


MÁQUINAS DE TORTURA - quase todas as "coisas públicas" são máquinas de tortura, instrumentos de humilhação: também escadas, ónibus, calçadas, ruas, viadutos, praias, chopincenteres, gramáticas, ortografias, livros, comícios, escolas: principalmente se você é "possuidor" de uma "deficiência" (nada mais cruel que a língua, outra máquina monstruosa de tortura), se é negro, se é velho, se é homossexual, se é pobre, se é estrangeiro de "culturas inferiores" (os imbecis e os conceitos monstruosos são mais imaginativos e persistente do que qualquer razão). este país chamado brasil é uma monstruosa máquina de tortura em todos os detalhes, basta olhar.


Alberto Lins Caldas



DOWNLOAD: DELINQUENT HABITS - MERRY GO ROUND - 2001 - VBR
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PULP FUSION

ORIGINAL 1970's GHETTO JAZZ & FUNK CLASSICS
192 Kbps



VOL 1 - ORIGINAL BREAKS FROM THE TOUGH SIDE
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VOL 3 - REVENGE OF THE GHETTO GROOVES
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VOL 7 - THE HARDER THEY COME
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O caminho do excesso conduz ao palácio da sabedoria

William Blake



DOWNLOAD: MULATU ASTATKE & THE HELIOCENTRICS - 2009 - 192 Kbps
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Tudo o que tenho feito em minha vida apenas tem me dado noções da minha precariedade. Um sentimento de falência, certo nojo pela condição dos homens e até ternura, às vezes; quase sempre - pena. Mesmo nas etapas das quais saio vitorioso, nunca se afasta o gosto da frustração. Competir pra mim é imoral, portanto: profissional, amorosa, familiarmente, meus acontecimentos não têm me preenchido nada. De transitoriedade e de insuficiência têm-me sido essas coisas do amor, da profissao e da família. A verdade é que não consigo comunicação. Nem o exterior comigo. Eu não aprendo a aceitar nada pela metade. E é este sentimento de culpa que me fica.

João Antônio




DOWNLOAD: CANDEIA - SAMBA DE RODA - 1974 - 160 Kbps
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EPITÁFIO PARA UM BUROCRATA


Faz da gravata
a forca
a fina veste
é tua mortalha
e teu birô
o teu esquife

Do gabinete ao túmulo
vade retro burocrata

Erickson Luna




DOWNLOAD: MASSIVE ATTACK - MEZZANINE - 1998 - VBR
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THE SEEDER



m o r f a i



DOWNLOAD: IDRIS MUHAMMAD - POWER OF SOUL - 1974 - 320 Kbps

USOS MILENARES DA CANNABIS






Os registros mais antigos dão conta de larga utilização medicamentosa de maconha na China desde 5200-6200 anos a.c. A planta aparece numa compilação do século I ou II d.c., que relata os ensinamentos atribuídos ao imperador Shen-Nung (2700 a.c.), indicada para a debilidade, a apatia e o reumatismo. No Nei-Ching, tratado médico atribuído ao imperador Kwang-Ti (2698 - 2599 a.c.) é sugerido o uso das flores ma-p’o para cicatrização de feridas; as sementes e as resinas para o sistema nervoso, para as infecções e como tônico rejuvenescedor para os mais velhos. Outros tratados posteriores, como o Rh-Va, de 1500 a.c., reproduzem os usos acima mencionados.

Na Índia são abundantes as referências explícitas ao valor espiritual e mágico-religioso da maconha, especialmente na literatura sagrada dos Vedas. No Artava-Veda (compilado por volta de 1600-1400 a.c.) a palavra bhang é sinônimo de “iniciação”, do “caminho que conduz até Shiva”, divindade da iluminação espiritual hindu. O texto implora à planta sagrada que “nos livre da calamidade” e nos “proteja contra doenças e todos os demônios”. Por volta de 1300 a.c. o consumo da erva, tanto sagrado quanto profano, já era uma realidade comum na Índia. Igualmente no Zen-Avesta, narrativa sânscrita de 600 a.c., a planta aparece destacada por suas virtudes místicas.

As referências à religião da Cannabis na Índia são constantes nas escrituras sagradas e, mesmo nos dias atuais, a tradição se mantém em algumas variações do budismo e do hinduísmo. Há na Índia shivaísta a crença de que um guardião vive na folha do bhang, e que Shiva ensinara que se deveria, ao plantá-la, pronunciar, várias vezes, a palavra bhang, e, igualmente, no seu preparo, recomendava-se proferir a palavra sagrada. Em narrativa mitológica, Shiva, após brigar com sua família, se afasta indo até os campos ficar só. Oprimido por um sol inclemente, encontra abrigo sob uma planta alta de cânhamo e então esmigalha e come algumas de suas folhas. A merenda o revigora tanto que ele adota a planta como seu alimento preferido, tornando-se conhecido como “O Senhor do Bhang”.

No budismo mahaiana acredita-se que o Buda vivera à base de uma semente de cânhamo por dia, durante os seis anos que antecederam a sua iluminação. No Himalaia Central o budismo tântrico admite o consumo ritual da Cannabis para elevação da consciência. A religião Tântrica desenvolvida no Tibet desde o século VII utiliza a planta para unir corpo, mente e espírito, além de considerar seu valor para a atividade sexual prolongada.

Bruno César Cavalcanti



DOWNLOAD: AUGUSTUS PABLO
- EAST OF THE RIVER NILE (+ bonus tracks) - 1977 - 192 Kbps
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Não há na maioria daquela gente uma profundeza de sentimento que a impila a ir ao âmago das coisas que fingem amar, de decifrá-las pelo amor sincero em que as têm, de querê-las totalmente, de absorvê-las. Só querem a aparência das coisas. Quando (em geral) vão estudar medicina, não é a medicina que eles pretendem exercer, não é curar, não é ser um grande médico, é ser doutor; quando se fazem oficiais do exército ou da marinha, não é exercer as obrigações atinentes a tais profissões, tanto assim que fogem de executar o que é próprio a elas. Vão ser uma ou outra coisa, pelo brilho do uniforme. Assim também são os literatos que simulam sê-lo para ter a glória que as letras dão, sem querer arcar com as dores, com o esforço excepcional, que elas exigem em troca. A glória das letras só as tem, quem a elas se dá inteiramente; nelas, como no amor, só é amado quem se esquece de si inteiramente e se entrega com fé cega.


Lima Barreto
do livro Os Bruzundangas



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CONFISSÃO DE UM TERRORISTA

Ocuparam minha pátria
Expulsaram meu povo
Anularam minha identidade
E me chamaram de terrorista

Confiscaram minha propriedade
Arrancaram meu pomar
Demoliram minha casa
E me chamaram de terrorista

Legislaram leis fascistas
Praticaram odiado apartheid
Destruíram, dividiram, humilharam
E me chamaram de terrorista

Assassinaram minhas alegrias,
Seqüestraram minhas esperanças,
Algemaram meus sonhos,
Quando recusei todas as barbáries

Eles... mataram um terrorista!


Mahmoud Darwish



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Arte dos nativos Huichol, do México, que fazem uso ritualístico do peyote




Representação de uma plantação de cannabis indica no Paquistão



Em ilustração mexicana do século XVI divindade se manifesta através do cogumelo Teononocatl



O desejo de alterar periodicamente a consciência é um impulso inato, normal, análogo à fome ou ao impulso sexual

Andrew Weil


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HIGH & LOW DRUG SONGS - 1917~1944 - 192 Kbps
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5.
o neoliberal
sonha um mundo higiênico:
um ecúmeno de ecônomos
de economistas e atuários
de jogadores na bolsa
de gerentes
de supermercado
de capitães de indústria
e latifundários de
banqueiros
- banquiplenos ou
banquirrotos
(que importa?
dede que circule
autoregulante
o necessário
plusvalioso
numerário)
um mundo executivo
de mega-empresários
duros e puros
mós sem dó
mais atento ao lucro
que ao salário
solitários (no câncer)
antes que solidários:
um mundo onde deus
não jogue dados
e onde tudo dure para sempre
e sempremente nada mude
um confortável
estável
confiável
mundo contábil.


6.

(a
contramundo
o mundo-não
-mundo cão-
dos deserdados:
o anti-higiênico
gueto dos
sem-saída
dos excluídos pelo
deus-sistema
cana esmagada
pela moenda
pela roda dentada
dos enjeitados:
um mundo-pêsames
de pequenos
cidadãos-menos
de gente-gado
de civis
sub-servis
de povo-ônus
que não tem lugar marcado
no campo do possível
da economia de mercado



7.
o neoliberal
sonha um admirável
mundo fixo
de argentários e multinacionais
terratenentes terrapotentes coronéis políticos
milenaristas (cooptados) do perpétuo
status quo:
um mundo privé
palácio de cristal
à prova de balas:
bunker blau
durando para sempre - festa estática
(ainda que sustente sobre fictas
palafitas
e estas sobre uma lata
de lixo)



Haroldo de Campos





DOWNLOAD: VICTOR SILA AND THE AFROFUNK EXPERIENCE
- FUNKIEST MAN IN AFRICA - 2006 - 192 Kbps

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A SUGESTIBILIDADE HUMANA



Os ideais da democracia e da liberdade chocam com o fato brutal da sugestibilidade humana. Um quinto de todos os eleitores pode ser hipnotizado quase num abrir e fechar de olhos, um sétimo pode ser aliviado das suas dores mediante injeções de água, um quarto responderá de modo pronto e entusiástico à hipnopédia. A todas estas minorias demasiado dispostas a cooperar, devemos adicionar as maiorias de reações menos rápidas, cuja sugestibilidade mais moderada pode ser explorada por não importa que manipulador ciente do seu ofício, pronto a consagrar a isso o tempo e os esforços necessários.

É a liberdade individual compatível com um alto grau de sugestibilidade individual? Podem as instituições democráticas sobreviver à subversão exercida do interior por especialistas hábeis na ciência e na arte de explorar a sugestibilidade dos indivíduos e da multidão? Até que ponto pode ser neutralizada pela educação, para bem do próprio indivíduo ou para bem de uma sociedade democrática, a tendência inata a ser demasiado sugestionável? Até que ponto pode ser controlada pela lei a exploração da sugestibilidade extrema, por parte de homens de negócios e de eclesiásticos, por políticos no e fora do poder?

Aldous Huxley

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parte 2: http://www.megaupload.com/pt/?d=PFY7WHNX

VIOLÊNCIA



este é um país não somente mentiroso, mas de má-fé: falam o tempo inteiro em violência (a “principal preocupação dos brasileiros”), como se essa violência propalada fosse a causa de alguma coisa. a violência é o feixe final, não da “atuação de traficantes”, mas da exploração em todas as instâncias, da brutal extração da mais-valia, da coisificação em todas as relações, da mercantilização de tudo: e da necessidade de tudo isso para o “sistema funcionar”: sem todas as “causas suficientes” não há capitalismo; sem todas as violências não há o que todos querem, o que todos se venderam e se vendem com os dentes expostos, para querer e possuir. a violência é um dos sintomas principais de que tudo segue a normalidade produtiva, a normalidade de consumo, a normalidade institucional e as normalidades imaginárias que fazem do brasileiro, o brasileiro. e se não fosse assim porque os milhões de famintos, violentados, desempregados, os sem-nada, não descem dos morros, são saem das periferias, não tomam para si o que saem do seu suor: porque são cúmplices: fazem parte como gado da violência necessária para que o sistema funcione, aquele mesmo que ele defende, procria e difunde.


Alberto Lins Caldas



DOWNLOAD: BURRO MORTO - VARADOURO EP - 2008 - 192 Kbps
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RIO DE JANEIRO



DOWNLOAD: ROY AYERS - STONED SOUL PICNIC - 1968 - 320 Kbps
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Para justificar-se, o terrorismo de estado fabrica terroristas: semeia ódio e colhe pretextos. Tudo indica que esta carnificina de Gaza, que segundo seus autores quer acabar com os terroristas, acabará por multiplicá-los.

Eduardo Galeano





DOWNLOAD: BUARI - 1975 - 256 Kbps








A partir de hoje penduro ao pescoço

O relógio que marca as horas;
A partir daí cessa o curso dos astros,
O Sol, o canto dos galos e o evoluir das sombras,
E tudo aquilo que a hora nunca anunciou
Está agora mudo, surdo e cego:
Toda a natureza se cala para mim
Diante do tiquetaque do relógio e da lei.


Friedrich Nietzsche






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SHAOLIN SOUL

MÚSICAS SAMPLEADAS PELO WU-TANG CLAN


DOWNLOAD: EPISODE 1 - 192 Kbps


DOWNLOAD: EPISODE 2 - 192 Kbps
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DOWNLOAD: EPISODE 4 - 192 Kbps


Deixemos uma coisa perfeitamente clara. Se a degradação e a mutilação por atacado da Faixa de Gaza for continuar; se a vontade de Israel é uma com a dos Estados Unidos; se a União Européia, a Rússia, as Nações Unidas e todas as organizações e agências legais internacionais espalhadas pelo globo vão continuar sentadas como manequins ocos sem fazer nada a não ser os repetidos “chamados” por um “cessar-fogo” de “ambos os lados”; se os covardes, obsequiosos e supinos Estados Árabes vão continuar de braços cruzados vendo seus irmãos serem trucidados de hora em hora enquanto a Super-Potência valentona do mundo olha-os ameaçadoramente de Washington, no caso de que digam qualquer coisinha que a desgoste; então vamos pelo menos dizer a verdade sobre por que está tendo lugar este inferno na terra.

O terror de estado disparado neste momento dos céus e do chão contra a Faixa de Gaza não tem nada a ver com o Hamas. Não tem nada a ver com o “Terror”. Não tem nada a ver com a “segurança” a longo prazo do Estado Judeu ou com o Hezbolá, a Síria ou o Irã, exceto na medida em que agrava as condições que levaram até a crise de hoje. Não tem nada a ver com alguma conjurada “guerra” – um eufemismo cínico e gasto que não representa mais que a escravização por atacado de qualquer nação que ouse reclamar seus direitos soberanos; que ouse afirmar que seus recursos são seus; que não queira uma das obscenas bases militares do Império assentada em suas queridas terras.

Esta crise não tem nada a ver com liberdade, democracia, justiça ou paz. Não é sobre Mahmoud Zahhar ou Khalid Mash'al ou Ismail Haniyeh. Não é sobre Hassan Nasrallah ou Mahmoud Ahmadinejad. Eles são todos peças circunstanciais que ganharam um papel na tempestade atual só agora, depois de que se permitiu por 61 anos que a situação se desenvolvesse até a catástrofe que é hoje. O fator islamista coloriu e continuará a colorir a atmosfera da crise; ele alistou líderes atuais e mobilizou amplos setores da população do mundo. Os símbolos fundamentais hoje são islâmicos – as mesquitas, o Alcorão, as referências ao profeta Maomé ou à Jihad. Mas esses símbolos poderiam desaparecer e o impasse continuaria.

Houve uma época em que o Fatah e a FPLP eram a bola da vez, quando poucos palestinos queriam ter qualquer coisa a ver com políticas ou medidas islamistas. Esta política não tem nada a ver com foguetes primitivos sendo lançados do outro lado da fronteira ou com túneis de contrabando ou com o mercado negro de armas, assim como o Fatah de Arafat tinha pouco a ver com as pedras e os atentados suicidas a bomba. As associações são contingentes; criações de um dado ambiente político. Elas são o resultado de algo completamente diferente do que os políticos mentirosos e seus analistas estão lhe dizendo. Elas se tornaram parte da paisagem dos acontecimentos humanos no Oriente Médio de hoje; mas incidências tão letais, ou tão recalcitrantes, mortais, enraivecidas ou incorrigíveis poderiam muito bem ter estado em seus lugares.

Descasque os clichês e o blá-blá-blá estridente e vazio da mídia servil e de seu patético corpo de servidores estatais voluntários no mundo ocidental e o que você encontrará é o desejo nu de hegemonia, de poder sobre os fracos e de domínio sobre a riqueza do mundo. Pior ainda, você encontrará o egocentrismo, o ódio e a indiferença, o racismo e a intimidação, o egoísmo e o hedonismo que tentamos tanto mascarar com nosso jargão sofisticado, nossas teorias e modelos acadêmicos refinados, que na verdade ajudam a guiar nossos desejos mais feios e baixos. A insensibilidade com que nos rendemos a eles já é endêmica à nossa cultura; nela floresce como moscas sobre um cadáver.

Descasque os atuais símbolos e linguagem das vítimas dos nossos caprichos egoístas e devastadores e você encontrará os gritos desafetados, simples e cheios de paixão dos pisoteados; dos “condenados da terra” implorando para que você cesse sua agressão fria contra suas crianças e seus lares; suas famílias e seus vilarejos; implorando que os deixe em paz para que tenham seu peixe e seu pão, suas laranjas, suas olivas e seu tomilho; pedindo primeiro educadamente e depois com crescente descrença no porquê de você não poder deixá-los viver sem serem incomodados nas terras de seus ancestrais, sem serem explorados, livres do medo de serem expulsos, violados ou devastados; livres dos carimbos e dos bloqueios de estrada e dos postos policiais de controle e cruzamentos; dos monstruosos muros de concreto, torres de guarda, bunkers de concreto e arame farpado; dos tanques, das prisões, da tortura e da morte. Por que é impossível a vida sem essas políticas e instrumentos do inferno?



A resposta é: porque Israel não tem qualquer intenção de permitir um estado palestino viável e soberano ao lado de suas fronteiras. Não tinha qualquer intenção de permiti-lo em 1948, quando arrancou 24% mais terra do que havia sido legal, ainda que injustamente, alocado pela Resolução 181 das Nações Unidas. Não tinha qualquer intenção de permiti-lo ao longo dos massacres e complôs dos anos 1950. Não tinha qualquer intenção de permitir dois estados quando conquistou os 22% que restavam da Palestina histórica em 1967 e reinterpretou a Resolução 248 do Conselho de Segurança da ONU a seu bel prazer, apesar do esmagador consenso internacional que estabelecia que Israel receberia completo reconhecimento internacional dentro de fronteiras reconhecidas e seguras se recuasse das terras que havia recentemente ocupado.

Não tinha qualquer intenção de reconhecer direitos nacionais palestinos nas Nações Unidas em 1974, quando – sozinho com os Estados Unidos – votou contra uma solução biestatal. Não tinha qualquer intenção de permitir um acordo de paz completo quando o Egito estava pronto para realizar, mas só recebeu, e obedientemente aceitou, uma paz separada que excluía os direitos dos palestinos e dos outros povos da região. Não tinha nenhuma intenção de trabalhar na direção de uma solução biestatal justa em 1978 ou em 1982, quando invadiu, bombardeou, esmigalhou e demoliu Beirute para que pudesse anexar a Cisjordânia sem ser incomodado. Não tinha qualquer intenção de admitir um estado palestino em 1987, quando a primeira Intifada se espalhou pela Palestina Ocupada, na Diáspora e nos espíritos dos despossuídos do mundo, ou quando Israel deliberadamente auxiliou o nascente movimento Hamas, como forma de implodir a força das facções mais seculares-nacionalistas.

Israel não tinha qualquer intenção de admitir um estado palestino em Madrid ou em Oslo, quando a OLP foi superada pela trêmula e titubeante Autoridade Palestina, muitos de cujos chapas perceberam a riqueza e o prestígio que ela lhes dava, às custas dos seus. Enquanto Israel alardeava nos microfones e satélites do mundo o seu desejo de paz e de uma solução biestatal, ele mais que duplicava os assentamentos colonizadores judeus, ilegais, nas terras da Cisjordânia e em volta de Jerusalém Oriental, anexando-as na medida em que construía e continua a construir uma superestrutura de estradas e autopistas sobre as cidades e vilarejos sobreviventes, picotados da Palestina. Anexou o Vale do Jordão, a fronteira internacional da Jordânia, expulsando quaisquer dos “nativos” que habitassem a terra. Fala com uma língua de víbora sobre os múltiplos amputados da Palestina, cujas cabeças serão logo arrancadas do corpo em nome da justiça, da paz e da segurança.

Através das demolições de casas, dos ataques à sociedade civil que tentavam lançar a cultura e a história palestinas num abismo de esquecimento; através da indizível destruição dos cercos aos campos de refugiados e dos bombardeios à infraestrutura na Segunda Intifada, através dos assassinatos e das execuções sumárias, pela grandiosa farsa do desengajamento até a nulificação das eleições livres, democráticas e justas da Palestina, Israel já nos fez saber qual é a sua visão, uma e outra vez, na linguagem mais forte possível, a línguagem do poder militar, das ameaças, das intimidações, do acosso, da difamação e da degradação.



Israel, com o apoio aprovador e incondicional dos Estados Unidos, já deixou dramaticamente claro ao mundo todo, várias vezes, repetindo em ação atrás de ação que não aceitará um estado palestino viável ao lado de suas fronteiras. O que mais é preciso para que escutemos? O que será necessário para terminar com o silêncio criminoso da “comunidade internacional”? O que será preciso para ver mais além das mentiras e da doutrinação acerca do que tem lugar diante de nós, dia após dia, claramente, no raio de visão dos olhos do mundo? Quanto mais horrorosas as ações no terreno, mais insistentes são as palavras de paz. Ouvir e assistir sem escutar nem ver permite que a indiferença, a ignorância e a cumplicidade continuem e aprofundem, a cada túmulo, a nossa vergonha coletiva.

A destruição de Gaza não tem nada a ver com o Hamas. Israel não aceitará qualquer autoridade nos territórios palestinos que ele, em última instância, não controle. Qualquer indivíduo, líder, facção ou movimento que não aceda às exigências de Israel ou que busque genuína soberania e igualdade de todas as nações da região; qualquer governo ou movimento popular que exija a aplicabilidade da lei humanitária internacional e a declaração universal dos direitos humanos para seu próprio povo será inaceitável para o Estado Judeu. Aqueles que sonham com um estado devem ser forçados a perguntarem-se: o que Israel fará com uma população de 4 milhões de palestinos dentro de suas fronteiras, quando comete crimes diários, se não a cada hora, contra a humanidade coletiva deles enquanto eles vivem ao lado de suas fronteiras? O que fará mudar de repente a razão de ser, o autoproclamado objetivo e razão de existência de Israel se os territórios palestinos forem anexados a ele totalmente?

O sangue de vida do Movimento Nacional Palestino jorra hoje pelas ruas de Gaza. Cada gota que cai rega a terra da vingança, do ressentimento e do ódio não só na Palestina, mas em todo o Oriente Médio e em boa parte do mundo. Nós temos uma escolha sobre se isso deverá continuar ou não. Agora é a hora de escolher.


Jennifer Loewenstein
Texto original




DOWNLOAD: MUSLIMGAUZE - HAMAS CINEMA GAZA STRIP - 1998 - 192 Kbps


Há medo generalizado no país, o que certamente será resultante de tanto progresso, fartura, liberdade, ordem, igualdade, segundo a ótica dos press releases oficiais. Lá fora, na França ou Inglaterra, dizem que quando se vê um policial, imediatamente se tem a sensação de segurança e se fica mais à vontade. Aqui, (ontem passando diante da PM da tua Toneleros), procurei a outra calçada da rua, evitando olhar os fardados e andei depressa. Há dez anos vemos isto crescendo: policiamento, policiamento ostensivo, policiamento muito ostensivo. Hoje, temos repressão ostensiva. Seqüestros indiscriminados, interrogatórios com tortura, meios bestiais e desrespeito completo pela pessoa humana. Há tanto policial, principalmente em são Paulo, que já não os notamos mais. Estamos calejados. Estamos empedernidos com a bestialidade. Convivemos com coisas terríveis e não estaremos ficando frios, nós, um povo semtimentalóide, outrora vivendo num país cordial, onde haveria segundo um poeta, escola risonha e franca?

João Antonio, 1976


DOWNLOAD: MATATA - INDEPENDENCE - 1974 - 192 Kbps

POESIA PALESTINA DE RESISTÊNCIA


Talvez perca — se desejares — minha subsistência
Talvez venda minhas roupas e meu colchão
Talvez trabalhe na pedreira... como carregador... ou varredor
Talvez procure grãos no esterco
Talvez fique nu e faminto
Mas não me venderei
Ó inimigo do sol
E até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Talvez me despojes da última polegada da minha terra
Talvez aprisiones minha juventude
Talvez me roubes a herança de meus antepassados
Móveis... utensílios e jarras
Talvez queimes meus poemas e meus livros
Talvez atires meu corpo aos cães
Talvez levantes espantos de terror sobre nossa aldeia
Mas não me venderei
Ó inimigo do sol
E até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Talvez apagues todas as luzes de minha noite
Talvez me prives da ternura de minha mãe
Talvez falsifiques minha história
Talvez ponhas máscaras para enganar meus amigos
Talvez levantes muralhas e muralhas ao meu redor
Talvez me crucifiques um dia diante de espetáculos indignos
Mas não me venderei
Ó inimigo do sol
E até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Ó inimigo do sol
O porto transborda de beleza... e de signos
Botes e alegrias
Clamores e manifestações
Os cantos patrióticos arrebentam as gargantas
E no horizonte... há velas
Que desafiam o vento... a tempestade e franqueiam os obstáculos
É o regresso de Ulisses
Do mar das privações
O regresso do sol... de meu povo exilado
E para seus olhos
Ó inimigo do sol
Juro que não me venderei
E até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Resistirei
Resistirei


Samih Al-Qassin, in Poesia Palestina de Combate



DOWNLOAD: GAUDI + NUSRAT FATEH ALI KHAN


O arquiteto vê-se diante da necessidade de mudança de profissão: nunca mais será construtor de formas isoladas, mas construtor de ambiências completas. O que torna a arquitetura hoje tão enfadonha é a sua preocupação sobretudo formal. O problema da arquitetura não é mais a oposição função/expressão, questão já superada. Ao utilizar formas existentes, ao criar novas formas, a preocupação do arquiteto deverá ser o efeito que tudo isso terá sobre o comportamento e a existência dos moradores.

Constant (1959)

DOWNLOAD: SEPULTURA - THE ROOTS OF SEPULTURA - DUPLO - 1996

LIVROS





É bom quando nossa consciência sofre grandes ferimentos, pois isso a torna mais sensível a cada estímulo. Penso que devemos ler apenas livros que nos ferem, que nos afligem. Se o livro que estamos lendo não nos desperta como um soco no crânio, por que perder tempo lendo-o? Para que ele nos torne felizes, como você diz? Nós seríamos felizes do mesmo modo se esses livros não existissem. Livros que nos fazem felizes poderíamos escrever nós mesmos num piscar de olhos. Precisamos de livros que nos atinjam como a mais dolorosa desventura, que nos assolem profundamente – como a morte de alguém que amávamos mais do que a nós mesmos –, que nos façam sentir que fomos banidos para o ermo, para longe de qualquer presença humana – como um suicídio. Um livro deve ser um machado para o mar congelado que há dentro de nós.


Franz Kafka




DOWNLOAD: DJ CRAZE PRESENTS BASS SESSION - 2007 - 320 Kbps
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HAITI



DOWNLOAD: HARVEY MASON -
MARCHING IN THE STREET - 1975 - 320 Kbps

SUICÍDIO: ESTATÍSTICAS



A cada 40 segundos alguém se suicida em algum lugar do mundo

São mais de 800 mil pessoas que se matam por ano

Diariamente matam-se mais de 2000 pessoas



No Brasil, há em média um suicídio por hora

Mais de 8 mil brasileiros se matam anualmente



Nos EUA são mais de 100 suicídios por dia



São dados baseados em registros oficiais, estima-se que os números reais são ainda maiores.





DOWNLOAD: 7 NOTAS 7 COLORES - LA MAMI INTERNACIONAL - 2001 - 128 Kbps



O Estado nunca enfrenta intencionalmente a consciência intelectual ou moral de um homem, mas apenas seu corpo, seus sentidos. Não está equipado com inteligência ou honestidade superiores, mas com força física superior. Não nasci para ser forçado a nada. Respirarei a meu próprio modo. Vejamos quem é o mais forte. Que força tem uma multidão? Só pode forçar-me aquele que obedece a uma lei mais alta que a minha. Forçam-me a tornar-me como eles. Não sei de homens que tenham sido forçados a viver desta ou daquela maneira por uma massa de homens. Que espécie de vida seria essa? Quando me deparo com um governo que diz “Teu dinheiro ou tua vida”, porque deveria apressar-me em dar-lhe meu dinheiro? Ele pode estar em grande dificuldade e não saber o que fazer, mas não posso ajudá-lo nisso. Ele deve ajudar a si mesmo, fazer como eu faço. Não vale a pena lamuriar-se. Não sou responsável pelo bom funcionamento da maquinaria da sociedade.


Henry David Thoreau




DOWNLOAD: CHICO BUARQUE - CONSTRUÇÃO - 1971
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ONEOMANIA



A sociedade capitalista se apresenta como sociedade do espetáculo, tal qual definiu Debord. Importa mais do que tudo a imagem, a aparência, a exibição. A ostentação do consumo vale mais que o próprio consumo. O reino do capital fictício atinge o máximo de amplitude ao exigir que a vida se torne ficção de vida. A alienação do ser toma o lugar do próprio ser. A aparência se impõe à existência.

Jacob Gorender



Na sociedade de consumo, diminui o espaço de tempo entre a vontade e a sua realização. Mais do que isso, diminui o prazo entre o nascimento da vontade e a sua morte. Compramos não para consumir, mas para nos livrarmos da vontade de comprar.

Zygmunt Bauman



DOWNLOAD: PIERO PICCIONI - PUPPET ON A CHAIN OST - 1970 - 192 Kbps















DOWNLOAD: STAX OF FUNK VOL. 2 - MORE FUNKY TRUTH - 192 Kbps



Empresas multinacionais são assim chamadas porque operam em muitos países ao mesmo tempo, mas pertencem a poucos países que monopolizam a riqueza, o poder político, militar e cultural, o conhecimento científico e a alta tecnologia. As dez maiores multinacionais somam atualmente uma receita maior do que a de cem países juntos.

Países em desenvolvimento é o nome pelo qual os entendidos designam os países subordinados ao desenvolvimento alheio. Segundo as Nações Unidas, os países em desenvolvimento enviam aos países desenvolvidos, através de desiguais relações comerciais e financeiras, dez vezes mais dinheiro do que aquele que recebem através da ajuda externa.

Ajuda externa é o nome do impostozinho que o vício paga à virtude nas relações internacionais. A ajuda externa é distribuída de tal maneira que, em regra, confirma a injustiça, raramente a contradiz. A África negra, em 1995, acumulava cerca de 75% dos casos de AIDS no mundo, mas recebia só 3% dos fundos distribuídos pelos organismos internacionais para a prevenção da peste.


Eduardo Galeano



DOWNLOAD: JAH SHAKA -
THE COMMANDMENTS OF DUB - CHAPTER ONE - 1982 - 192 Kbps
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O ARQUIVO

No fim de um ano de trabalho, joão obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos. joão era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe.
No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor.
Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição.
Dois anos mais tarde, veio outra recompensa.
O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial.
Desta vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento.
Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança.
Agora joão acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto. Sua pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou.
Prosseguiu a luta.
Porém, nos quatro anos seguintes, nada de extraordinário aconteceu.
joão preocupava-se. Perdia o sono, envenenado em intrigas de colegas invejosos. Odiava-os. Torturava-se com a incompreensão do chefe. Mas não desistia. Passou a trabalhar mais duas horas diárias.
Uma tarde, quase ao fim do expediente, foi chamado ao escritório principal.
Respirou descompassado.
— Seu joão. Nossa firma tem uma grande dívida com o senhor.
joão baixou a cabeça em sinal de modéstia.
— Sabemos de todos os seus esforços. É nosso desejo dar-lhe uma prova substancial de nosso reconhecimento.
O coração parava.
— Além de uma redução de dezesseis por cento em seu ordenado, resolvemos, na reunião de ontem, rebaixá-lo de posto.
A revelação deslumbrou-o. Todos sorriam.
— De hoje em diante, o senhor passará a auxiliar de contabilidade, com menos cinco dias de férias. Contente?
Radiante, joão gaguejou alguma coisa ininteligível, cumprimentou a diretoria, voltou ao trabalho.
Nesta noite, joão não pensou em nada. Dormiu pacífico, no silêncio do subúrbio. Mais uma vez, mudou-se. Finalmente, deixara de jantar. O almoço reduzira-se a um sanduíche. Emagrecia, sentia-se mais leve, mais ágil. Não havia necessidade de muita roupa. Eliminara certas despesas inúteis, lavadeira, pensão.
Chegava em casa às onze da noite, levantava-se às três da madrugada. Esfarelava-se num trem e dois ônibus para garantir meia hora de antecedência. A vida foi passando, com novos prêmios.
Aos sessenta anos, o ordenado equivalia a dois por cento do inicial. O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo.
O corpo era um monte de rugas sorridentes.
Todos os dias, um caminhão anônimo transportava-o ao trabalho. Quando completou quarenta anos de serviço, foi convocado pela chefia:
— Seu joão. O senhor acaba de ter seu salário eliminado. Não haverá mais férias. E sua função, a partir de amanhã, será a de limpador de nossos sanitários.
O crânio seco comprimiu-se. Do olho amarelado, escorreu um líquido tênue. A boca tremeu, mas nada disse. Sentia-se cansado. Enfim, atingira todos os objetivos. Tentou sorrir: — Agradeço tudo que fizeram em meu benefício. Mas desejo requerer minha aposentadoria. O chefe não compreendeu:
— Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses terá de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto? Quarenta anos de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha?
A emoção impediu qualquer resposta.
joão afastou-se. O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, ficou lisa. A estatura regrediu. A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Tornou-se cinzento.
João transformou-se num arquivo de metal.


Victor Giudice





DOWNLOAD: KID KOALA - CARPAL TUNNEL SYNDROME - 2000 - 192 Kbps
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O mundo jamais o desencorajará de operar na configuração padrão, porque o mundo dos homens, do dinheiro e do poder segue sua marcha alimentado pelo medo, pelo desprezo e pela veneração que cada um faz de si mesmo. A nossa cultura consegue canalizar essas forças de modo a produzir riqueza, conforto e liberdade pessoal. Ela nos dá a liberdade de sermos senhores de minúsculos reinados individuais, do tamanho de nossas caveiras, onde reinamos sozinhos.


David Foster Wallace




DOWNLOAD: THE FUNKEES - NOW I'M A MAN - 1977 - 192 Kbps



























DOWNLOAD: SNJ - SE TU LUTAS TU CONQUISTAS - 2000
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GRITO NEGRO



Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão.
Tenho que arder
queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.


José Craveirinha



DOWNLOAD: THE GRITS - 2008 - VBR 160~224



O trabalho é a negação da vida, da alegria e do prazer humano. O trabalho faz do homem um estranho para si mesmo, alienado da humanidade como um todo, negado em sua essência, em sua vida, em seus desejos... Além de desperdiçar seu suor, seu sangue e sua vida numa atividade cujo absurdo só é menor do que o embrutecimento que acarreta, o trabalhador é separado dos demais homens, separado da espécie humana.


Grupo Comunista Internacionalista Belga




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A MÁQUINA PLANETÁRIA DO TRABALHO


O nome do monstro que deixamos crescer e que mantém nosso planeta em suas garras é: Máquina Planetária do Trabalho. Se queremos que a nossa espaçonave volte a ser um lugar agradável, temos que desmantelar essa Máquina, consertar os estragos e fazer certos acordos básicos para um novo começo. Então, nossa primeira pergunta deve ser: como faz a Máquina Planetária do Trabalho para nos controlar? Como é organizada? Quais são seus mecanismos e como podem ser destruídos?


A Máquina é planetária: come na África, digere na Ásia e caga na Europa. É planejada e regida por companhias internacionais, sistemas bancários, circuitos de combustível, produtos não-manufaturados e outros bens. Existem montes de ilusões quanto a nações, Estados, blocos, Primeiro, Segundo, Terceiro e Quarto Mundos – mas estas são só subdivisões menores, partes da mesma maquinaria. Claro que diferentes engrenagens exercem pressões, tensões e fricções entre si. A Máquina é feita de suas próprias contradições: operários - capital; capital privado - capital do Estado (capitalismo - socialismo); desenvolvimento - subdesenvolvimento; miséria - desperdício; guerra - paz; mulheres - homens, etc. A Máquina não é uma estrutura homogênea; ela usa suas contradições internas para expandir seu controle e sofisticar seus instrumentos. Diferente dos sistemas fascistas ou teocráticos, ou como no 1984 de Orwell, a Máquina do Trabalho permite um nível "sadio" de resistência, inquietação, provocação e revolta. Ela digere sindicatos, partidos radicais, movimentos de protesto, manifestações e mudanças democráticas de regime. Se a democracia não funciona, ela usa a ditadura. Se a sua legitimidade entra em crise, ela tem prisões, tortura e campos de concentração de reserva. Nenhuma dessas modalidades é essencial para entender a função da Máquina.

O princípio que governa todas as atividades da Máquina é a economia. Mas o que é economia? É uma troca impessoal e indireta de tempo de vida cristalizado. Você gasta seu tempo para produzir uma peça que é usada por alguém que você não conhece para montar uma bugiganga que é comprada por outro desconhecido para fins que você ignora. O circuito dessa sucata de vida é regulado de acordo com o tempo de trabalho que foi investido no material bruto, na sua manufatura e em você. A medida é o dinheiro. Os que produzem e trocam não têm controle sobre seu produto comum, então pode acontecer que trabalhadores revoltados sejam mortos exatamente com os revólveres que ajudaram a produzir. Cada peça de comércio é uma arma contra nós, cada supermercado um arsenal, toda fábrica um campo de batalha. Este é o mecanismo da Máquina do Trabalho: retalhar a sociedade em indivíduos isolados, chantageá-los separadamente com salários ou violência, usar seu tempo de trabalho de acordo com os planos. Economia quer dizer: expansão do controle da Máquina sobre suas partes, tornando essas partes cada vez mais dependentes da própria Máquina.

Todos somos partes da Máquina Planetária do Trabalho – nós somos a Máquina. Representamos a Máquina uns contra os outros. Desenvolvidos ou não, assalariados ou não, autônomos ou empregados, servimos à proposta dela. Onde não há indústria, "produzimos" trabalhadores virtuais e exportamos para zonas industriais. A África produziu escravos para as Américas, a Turquia produz trabalhadores para a Alemanha, o Paquistão para o Kuwait, Ghana para a Nigéria, o Marrocos para a França, o México para os Estados Unidos. Áreas virgens podem ser usadas como cenário para os negócios turísticos internacionais: índios em suas reservas, polinésios, balis, aborígenes. Os que tentam sair da Máquina preenchem as funções de pitorescos marginais (hippies, yogues, etc.). Enquanto a Máquina existir, estaremos dentro dela. Ela destruiu ou mutilou quase todas as sociedades tradicionais ou as levou a desmoralizantes situações defensivas. Se você tenta se retirar para um vale deserto e viver sossegadamente de uma agricultura de subsistência, pode crer que vai ser encontrado por um coletor de impostos, um funcionário do planejamento ou um policial. Com seus tentáculos, a Máquina pode alcançar virtualmente todos os lugares deste planeta em questão de horas. Nem nas partes mais remotas do deserto de Gobi você pode dar uma cagadinha sem ser notado.


Segundo capítulo do manifesto Bolo-Bolo




DOWNLOAD: THE BACKYARD HEAVIES -
JUST KEEP ON TRUCKIN' - 2007 - VBR > 192 Kbps
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Courtesy of Underscovered.

CAMINHEMOS SERENOS



Sob as estrelas, sob as bombas,
sob os turvos ódios e injustiças,
no frio corredor de lâminas eriçadas,
no meio do sangue, das lágrimas
caminhemos serenos.

De mãos dadas,
através da última das ignomínias,
sob o negro mar da iniquidade
caminhemos serenos.
Sob a fúria dos ventos desumanos,
sob a treva e os furacões do fogo
aos que nem com a morte podem vencer-nos
caminhemos serenos

O que nos leva é indestrutível,
a luz que nos guia conosco vai.
E já que o cárcere é pequeno
para o sonho prisioneiro,
já que o cárcere não basta
para a ave inviolável,
que temer, ó minha querida?
Caminhemos serenos.

No pavor da floresta gelada,
através das torturas, através da morte,
em busca do país da aurora,
de mãos dadas, querida, de mãos dadas
Caminhemos serenos


Papiniano Carlos




DOWNLOAD: JB'S - FOOD FOR THOUGHT - 1972 - 192 Kbps

A VIOLÊNCIA DAS LEIS



Muitas constituições foram criadas de modo a fazer com que as pessoas acreditassem que todas as leis estabelecidas atendiam a desejos expressos pelo povo. Mas a verdade é que não só nos países autocráticos, como naqueles supostamente mais livres, as leis não foram feitas para atender à vontade da maioria, mas sim à vontade daqueles que detêm o poder. Portanto elas serão sempre, e em toda parte, aquelas que mais vantagens possam trazer à classe dominante e aos poderosos. As leis são impostas utilizando os únicos meios capazes de fazer com que algumas pessoas se submetam à vontade de outras: pancadas, perda da liberdade e assassinato. Não há outro meio.


Nem poderia ser de outro modo, já que as leis são uma forma de exigir que determinadas regras sejam cumpridas e de obrigar determinadas pessoas a cumpri-las (ou seja, fazer o que outras pessoas querem que elas façam) e isso só pode ser obtido com pancadas, com a perda da liberdade e com a morte. Se as leis existem, é necessário que haja uma força capaz de fazer com que alguns seres se submetam à vontade de outros e esta força é a violência. Não a violência simples, que alguns homens usam contra seus semelhantes em momento de paixão, mas uma violência organizada, usada por aqueles que têm o poder nas mãos para fazer com que os outros obedeçam à sua vontade.

Assim, a essência da legislação não está no sujeito, no objeto, no direito, na idéia do domínio da vontade coletiva do povo ou em qualquer outra condição tão confusa e indefinida, mas sim no fato de que aqueles que controlam a violência organizada dispõe de poderes para forçar os outros a obedecê-los, fazendo aquilo que eles querem que seja feito.

Assim, uma definição exata e irrefutável para legislação, que pode ser entendida por todos, é esta: "As leis são regras feitas por pessoas que governam por meio da violência organizada e que podem fazer com que aqueles que se recusam a obedecê-las sofram pancadas, a perda da liberdade e até mesmo a morte".


Leon Tolstói, em A Escravidão de Nosso Tempo, 1900




DOWNLOAD: MEXICANO 777 - GOD'S ASSASSINS - 2001 - 192 Kbps
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FUNKAPHONIX - RAW & UNCUT FUNK - 1968~1975

DOWNLOAD: VOL 1 - 192 Kbps



DOWNLOAD: VOL 3 - 192 Kbps



DOWNLOAD: VOL 5 - 192 Kbps

SONETO CORRECIONAL


Incauto, um deputado se encaminha

a pé para a festinha da bancada.
De súbito, é cercado na calçada
e está preso no centro da rodinha.

Primeiro, um empurrão o desalinha.
Um murro deixa a boca ensangüentada.
Tentando reagir, o cara é cada
vez mais encurralado e só escoicinha.

Não tarda, e um pé mais ágil se revela.
Tropeça e cai, por fim, o desgraçado,
e um chute logo acerta-lhe a costela.

Já chovem pontapés de todo lado.
Os dentes do político esfacela
o bico dum sapato bem surrado.


Glauco Mattoso






DOWNLOAD: AIFF - AFRO SOUL SYSTEM - 2007 - VBR
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CONGRESSO INTERNACIONAL DO MEDO




Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.


Carlos Drummond de Andrade






DOWNLOAD: ANTONIO CARLOS JOBIM - STONE FLOWER - 1970
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Dizem-me: "A desgraça da tua terra nada mais é do que um aspecto da desgraça universal e as lágrimas e o sangue que foram vertidos no teu país são apenas algumas gotas do rio de sangue e lágrimas que corre dia e noite nos vales e planícies da Terra".

Sim, mas a desgraça do meu povo é uma desgraça muda, preparada e executada por serpentes, nas trevas e no sigilo.
Se o meu povo se tivesse revoltado contra governantes tirânicos e tivesse perecido inteiramente na rebelião, diria eu que a morte pela liberdade é mais honrosa do que a vida na submissão. E quem penetra na eternidade de espada na mão torna-se imortal - como a justiça é imortal.
Se o meu país tivesse tomado parte na luta das nações e perecido no campo de batalha, eu diria que a tempestade arranca na sua passagem os ramos verdes e os ramos secos e que a morte na tempestade é mais honrosa que a morte na apatia da velhice.
Se um terremoto houvesse assolado a minha pátria e enterrado sob os seus escombros meus parentes e bem amados, eu diria que as leis ocultas obedecem a uma vontade superior à vontade humana e não devemos procurar penetrar nos seus mistérios.
Mas meus parentes não morreram numa rebelião, nem no campo de batalha, nem num terremoto.
Meus parentes morreram crucificados.
Morreram no silêncio, pois os ouvidos da humanidade se fecharam para seus apelos e gritos.
Morreram porque não aceitaram aliar-se aos seus inimigos, como covardes; nem renegar seus amigos, como traidores.
Morreram porque não eram criminosos.
Morreram porque eram pacíficos.
Morreram de fome na terra onde jorram o mel e o leite.
Morreram porque os demônios roubaram os produtos de seus campos e os rebanhos de seus pastos.
Morreram porque as serpentes sopram o seu veneno na atmosfera, que antes era perfumada pelo hálito dos cedros e das rosas e do jasmin.

Meus e vossos parentes morreram, ó meus irmãos e compatriotas! Que podemos fazer por quem não morreu com eles?
Nossos lamentos não satisfarão a sua fome. Nossas lágrimas não aplacarão a sua sede. Deixá-los-emos perecer, sem fazermos uma tentativa para salvá-los?
Permaneceremos hesitantes, duvidosos, preguiçosos, distraídos do seu grande drama, pelas futilidades da vida?


Gibran Khalil Gibran




DOWNLOAD: FRATELLO BEATZ VOL 8 -
ISAAC HAYES SWEET LOOPS & SMOOTH BEATS - 2008 - 192 Kbps

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RAÇA DO CARALHO




DOWNLOAD: LEE PERRY - BLACK BOARD JUNGLE DUB - 1973 + EXTRAS










Excertos de entrevista concedida por Vera Malaguti Batista ao Fazendo Media em junho de 2006. Vera é autora do livro "O medo na cidade do Rio de Janeiro: dois tempos de uma história".



Poderíamos dizer que a imprensa ajuda a estimular a violência com o tipo de cobertura que faz?

Eu acho que sim. Acho que hoje a mídia, na sua totalidade, é sua principal protagonista, pois ela não permite um aprofundamento do problema, faz questão de deixar num nível superficial apenas. E nós temos a Globo, com o monopólio da opinião pública. Os outros disputam, mas mais ou menos todos reproduzem o padrão da Globo. Então essa discussão de violência no Brasil não avança. A imprensa é estimuladora do medo. Ao ficar na superfície, as razões maiores do aumento da violência não são discutidas, então a gente não caminha pra frente. Nós estamos nos agarrando a um modelo que só vai gerar mais violência, um modelo de segurança pública, um modelo prisional. A mídia está fazendo um elogio ao modelo norte-americano, quando este não é modelo para ninguém, pois é um modelo perverso - está aí Guantámano, um paradigma do que seria o que nós chamamos estado penal no neoliberalismo. A mídia faz parte, sim, do problema, mais forte do que há quinze ou vinte anos. A gente fala do discurso único econômico, mas ele vem junto com o discurso único penal. O discurso único econômico é o discurso no qual o Estado tem que gastar pouco, no qual temos que pagar com a riqueza nacional os juros do sistema financeiro internacional. Nós não temos um projeto de desenvolvimento nacional que seja nosso, que não seja subordinado à hegemonia norte-americana ou transnacional dos outros países, e o modelo penal que corresponde a isso é um modelo que aposta no rigor cada vez maior, que aposta na criminalização da pobreza. Assim, você vai cada vez prender mais por pequenos delitos, terá penas mais longas, menos garantias para os presos. Então estamos chegando ao absurdo: em 2007 teremos um total de 500 mil presos no Brasil.


Qual a sua análise sobre os últimos episódios que ocorreram em São Paulo?*

Eu acho que é a explosão de um sistema carcerário enlouquecido. Há dez anos no Brasil havia cerca de 100 mil presos; hoje, só em São Paulo são 140 mil, nas piores condições possíveis. Eu digo que o nosso sistema penal está conjugando perversamente Guantánamo com Carandiru. O rigor de Guantánamo, onde os presos fizeram uma rebelião pelo direito de se suicidar; por outro lado, as condições desumanas que existiam no Carandiru. Então a gente tem aqui no Rio, na Polinter, os presos se amarrando nas grades porque não têm espaço para dormir. Eu vi que o sistema penal de Vitória tinha tantos presos que eles ficavam o tempo todo dentro de viaturas. E aí a imprensa não discute as condições de vida dentro da cadeia. Ela trata, sim, de demonizar cada vez mais aqueles miseráveis que estão lá dentro. Que vão sendo transformados num marco legal que aumenta cada vez mais a pena, vão sendo brutalizados e transformados nesses "monstros" como se fossem inimigos da sociedade. Por exemplo, há presos que pedem para a família não visitá-los porque eles não querem que as filhas passem por aquela revista. Tivemos em São Paulo esse sistema se comunicando com uma periferia também explosiva, desiludida, desamparada, sem esperança, acostumada a receber um tratamento truculento dos órgãos de segurança com uma polícia que é atirada ao confronto. Nunca se mataram tantos policiais, nunca os agentes penitenciários trabalharam em condições tão desumanas. É um sistema que é bom para alguém, isso é que a gente precisa descobrir - pra quem é bom. Porque nos Estados Unidos este sistema é muito lucrativo. Você olha dentro dele e só vê latino-americano, afro-americano, e agora árabe. É altamente lucrativo porque é privatizado. Eu acho que o pânico também ajuda a manter posições menos razoáveis, então para alguma coisa serve. Não serve para paz pública e para segurança pública. O sistema prisional americano, por ser privatizado, é como uma empresa. Então, quanto mais cliente tiver, mais lucrativo fica. Você vê por aqui blindagem de carro, armamento, aparelhos de escuta. Vigilância privada é o setor que cresce na economia neoliberal. O neoliberalismo, por onde passou, criou violência. Ele cria não só desigualdade e concentração, mas também desesperança, competitividade, individualismo muito grande, cria ódio nas pessoas que estão fora do sistema de consumo. Essa raiva, no Brasil, vem a se somar com nossa tradição de extermínio de índios, nossas permanências do sistema escravocrata. Como diz Joel Rufino dos Santos, o Brasil tem uma história de 500 anos dos quais 400 são com escravidão.


A imprensa agora não coloca mais os nomes de facções criminosas, fotos, nomes de traficantes, pois acredita que isso glamuriza e os torna heróis. O que você acha?

O glamour deles vem da despolitização que a imprensa fez, dos ataques que ela fez a todas as lideranças de esquerda, que transformou toda a juventude rebelde numa força que tem algo de rebeldia, mas não tem uma canalização política e ideológica. Então, o resultado é isso. E também tem toda uma geração de crianças criadas em uma cultura onde ela tem que pular cabeças cortadas, corpos, meninos que levam tapa na cara e isso estimulado pela mídia o tempo todo. A gente coloca a polícia para fazer o papel de ser caçador de pobre e em comunidades da periferia de São Paulo, dos Alagados, Pernambuco, Salvador, Rio. A maneira de lidar com os delitos na pobreza é com valas, bater. E cada vez que a violência aumenta as pessoas acham que tem que bater mais, que tem que matar mais. Então nós estamos numa espiral suicida que não é boa para ninguém, mas a gente continua nela. Fora os discursos oportunistas eleitorais, esses deputados que não estudam, não pensam e querem aparecer na mídia propondo exatamente o remédio que está nos matando.


Por que, no seu entender, a mídia sempre está criando a figura do bem e do mal, ao tratar destes assuntos?

Porque é mais fácil. É um processo de imbecilização e ela está conseguindo criar uma coisa que nos Estados Unidos tem um pouco: o imbecil médio. É aquele cara que vê Fantástico, que se informa pela revista Veja. Aí nós temos o imbecil médio nacional, impossibilitado de pensar criativamente.


*Em maio de 2006 ocorreram em São Paulo diversos ataques a entidades públicas, principalmente órgãos policiais, deixando diversos mortos. Tais ataques foram atribuídos a presos que os teriam ordenado como protesto às condições precárias dos presídios.




DOWNLOAD: SAMURAI CHAMPLOO OST - 2004 - 4 ALBUNS


NUJABES + FAT JOHN - DEPARTURE - VBR 192~256 Kbps
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TSUTCHIE + FORCE OF NATURE - MASTA - 192 Kbps
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TSUTCHIE - PLAYLIST - VBR 192~224 Kbps


FORCE OF NATURE + NUJABES + FAT JOHN - IMPRESSION - 192 Kbps
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Samurai Champloo é uma série de anime criada por Shinichiro Watanabe, o mesmo autor de Cowboy Bebop. Clique aqui para baixar individualmente qualquer episódio da série em formato RMVB com legendas em português.


Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista a chave,
Escondem o horizonte, empurram nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.


Alberto Caeiro



DOWNLOAD: AFRICAN MUSIC MACHINE - BLACK WATER GOLD - 1973 - 192 Kbps
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Dei-me sempre com pessoas que têm uma concepção original da vida, que não se deixam levar pelo que lêem nos jornais, sabendo muito bem ler nas entrelinhas. Tais pessoas são felizes. Eu sou feliz. Comigo só trago o bilhete de identidade, ou melhor, o cartão de residente. É o único cartão que trago na carteira, não tenho cartão de crédito nem talão de cheques. A vida é maravilhosa, mas é preciso uma pessoa saber desprender-se de tudo isso que desgraçadamente dá felicidade aos imbecis.


Se o mundo se transformou numa coisa mal-humorada, isso deve-se, sem dúvida, ao fato de agora ser preciso muito dinheiro para viver. A vida é muito simples, mas tudo conspira para a tornar complicada. É quando nos vemos livres da ambição do dinheiro, do orgulho ou do poder que a vida se revela formidável.


Um idiota preguiçoso continua sempre sendo um idiota! E um preguiçoso inteligente é alguém que refletiu acerca do mundo em que vive. Não se trata, pois, de preguiça. É tempo de reflexão. E quanto mais preguiçoso fores, mais tempo tens para refletir. E é por isso que, no oriente, isso se designa por filosofia oriental. A maior parte das pessoas tem tempo. Quanto mais se desce para o sul, mais encontramos profetas, magos, pessoas que refletiram sobre o mundo.


Não fazer nada é uma atividade interior; não é preguiça, é reflexão.


Albert Cossery





DOWNLOAD: ARTANKER CONVOY - MATURE FANTASY - 2005 - 160 Kbps
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O homem na penitenciária é a imagem virtual do tipo burguês em que ele deve se transformar na realidade. Os que não o fizeram lá fora serão forçados a isso aí dentro numa terrível pureza .


Theodor W. Adorno



DOWNLOAD: B. B. KING - LIVE IN COOK COUNTY JAIL - 1971 - VBR
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O poder corta e torna a cortar a erva daninha, mas não pode atacar a raiz sem atentar contra a sua própria vida. Condena-se o criminoso, não a máquina que o fabrica, como se condena o viciado e não o modo de vida que cria a necessidade de consolo químico ou sua ilusão de fuga. E assim se exime da responsabilidade de uma ordem social que lança cada vez mais gente às ruas e às prisões, e que gera cada vez mais desesperança e desespero. A lei é como uma teia de aranha, feita para aprisionar moscas e outros insetos pequeninos e não os bichos grandes, como conclui Daniel Drew. E já faz um século que José Hernández, o poeta, comparou a lei com uma faca, que jamais fere quem a maneja. Os discursos oficiais, no entanto, invocam a lei como se ela valesse para todos e não só para os infelizes que não podem evitá-la. Os delinqüentes pobres são os vilões do filme: os delinqüentes ricos escrevem o roteiro e dirigem os atores.


Eduardo Galeano




DOWNLOAD: LE PEUPLE DE L'HERBE - RADIO BLOOD MONEY - 2007 - VBR 160~192
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Oh! sejamos pornográficos
(docemente pornográficos).
Por que seremos mais castos
que o nosso avô português?

Oh! sejamos navegantes,
bandeirantes e guerreiros
sejamos tudo que quiserem,
sobretudo pornográficos.

A tarde pode ser triste
e as mulheres podem doer
como dói um soco no olho
(pornográficos, pornográficos).

Teus amigos estão sorrindo
de tua última resolução.
Pensavam que o suicídio
fosse a última resolução.
Não compreendem, coitados,
que o melhor é ser pornográfico.

Propõe isso ao teu vizinho,
ao condutor do teu bonde,
a todas as criaturas
que são inúteis e existem,
propõe ao homem de óculos
e à mulher da trouxa de roupa.
Dize a todos: Meus irmãos,
não quereis ser pornográficos?


Carlos Drummond de Andrade



DOWNLOAD: BAR-KAYS - SOUL FINGER - 1967 - 320 Kbps

LIBERDADE DE EXPRESSÃO


tenho me engajado a vida inteira na luta e na defesa da liberdade. aqui pretendo falar daquela liberdade que deve ser completa, total, absoluta: a de pensar, falar, imaginar e escrever definitivamente tudo sem que nada impeça, nada proíba; nada censure, nada se interponha, nada reverta ou abale; nada torture ou aprisione. que tudo responda, mas que nada rasgue, queime, impossibilite, processe, violente, mude, refaça, esconda, ameace.
e pensar isso e assim nesse país infeliz (não que haja países felizes) que carrega o fascismo como corpo e alma, como história e memória, como cotidiano e crença, é pedir demais.
uma das loucuras aceitas como normalidade é o “delito de opinião”, que permite processar os que escrevem, como se isso fosse a maior conquista do mundo. em nome de todos os bons conceitos, das boas idéias, do reto caminho, todos renunciam à liberdade, justificam a censura em todas as suas sutis formas, o corte, o processo, a perseguição, a imposição. outra é a “apologia ao crime”, como se defender qualquer forma de crime, de delito, de horror reproduzisse magicamente esse horror, como se fossem todos imbecis que não podem nem conseguem discernir nada. e quem “omite opinião” é processado, preso e perseguido, e isso não é visto como o maior dos horrores, uma brutalidade.
nada, absolutamente nada do que é ou pode ou já foi escrito é mais abominável que as ações contra o escrito, o pensado, o desejado, o dito, o visto. tudo, absolutamente tudo, pode e deve ser dito, ser escrito, ser transformado em imagem, em som, em algo manipulável. nossa função é defender essa forma absoluta de liberdade e a sua também absoluta resposta e lutar contra o abominável que foi escrito, pensado, falado, filmado, mas jamais proibir. a luta se faz entre as escritas, entre falas.
defender, propagar, expor todas as formas de exploração como se fizesse o bem, os apartáides, todos os nazismos, todas as formas de terrorismo, a pedofilia, a proibição de livros e idéias, as chacinas, os massacres, as perseguições, as torturas, as humilhações, as intervenções, as desproteções, as dormências, os conformismos, os genocídios, as repressão, o terror, os racismos, as homofobias, os machismos: - são absolutamente detestáveis, ridículas e monstruosas, mas devem ter o direito de serem ditos. devo ser livre para escolher ou não o abominável, sem que ele seja retirado violentamente dos meus sentidos, do meu corpo, da minha consciência, da minha convivência como se fôssemos “débeis mentais”, “escravos” ou “crianças”: eu devo escolher, eu posso escolher, eu luto para escolher, eu sou escolha. não pode ser a polícia, o exército, a tradição, o mercado, a mídia, os intelectuais, o partido, o bom gosto, o bom tom, a justiça, o estado, o síndico, o sacerdote, o prefeito, o censor, o professor, o pai: precisamos aprender a conviver com a diferença e com a liberdade que essa diferença exige. a tolerância absoluta é ao “escrito” (ficção de convicção), jamais ao intolerável que, se exercendo, destrói essa liberdade e outras que são essenciais.
tudo dizer, tudo escrever, tudo ouvir, tudo ver, tudo escrever, tudo ouvir, tudo pensar tem como correlato a luta obsessiva contra as múltiplas barbáries que transformam tudo em mercadoria, em cinzas ou numa perversa violência sem fim. nada pode ser íntegro, intocável; nada deve sair ileso; nada é sagrado, nada é puro; nenhuma idéia, nenhum nome, nenhuma relação, nenhuma crença, nenhuma noção, nenhum deus, nenhuma gramática, nenhum costume, nenhum corpo, nenhuma cor, nenhuma memória, nenhum desejo, nada pode escapar ao ridículo, à crítica, ao escracho, ao escárnio, à dissolução, ao direito de ser exposto, comparado, diminuído, posto na sua devida estatura.
o que não resiste, não se agüenta, o que chama a polícia, a justiça, os amigos, os capangas, o exército é porque não vale a pena. se valesse a pena responderia à altura, lutaria com as mesmas armas, sem impor sua evidência de poder sem contestação, sua evidência monstruosa. ao clamar os poderes se esvazia de valor, de verdade, comungando com tudo aquilo que impõe sombras, violência e mercadoria como horizonte único.
não é à toa que no brasil a palavra sempre teve donos, sempre foi vigiada, sempre fez parte de sistemas de permissão e proibição, sempre foi propriedade privada, sempre foi fazenda e fábrica, sempre se colou à moral, à imagem, aos bons costumes, à pessoa: sem a garantia da palavra, sem a palavra garantida e protegida, grande parte das crenças estúpidas e fascistas dos brasileiros se desmoraliza e sua situação de dependência aparece.
entre os brasileiros a palavra deve, precisa inapelavelmente ser tutelada, protegida, abrigada, brindada; o indivíduo não pode estar só diante da tempestade do dizer: é preciso chamar o rei, a lei, todas as formas de poder para protegê-lo da parrhesia dos trágicos cínicos, a liberdade de linguagem, a liberdade de falar francamente a sua verdade sem mediações permitidoras ou censoras.
essa palavra tutelada dos brasileiros torna-os eternamente infantis, recorrendo sempre ao papai quando sua imagem é atingida, quando sua vida é exposta, quando sua moral é danificada: são incapazes de dizer de volta e na medida, incapazes de rejeitar a palavra sem o apoio do rei ou da lei: são castrados ao castrarem com a lei e com o rei. ao não enfrentarem as tempestades das palavras, além de se tornarem fracos, fortalecem as tempestades viciadas, os nazismos e todas as formas monstruosas das palavras. ao buscarem a verdade com a força se enfraquecem e a verdade e o direito somem. todos são "senhores de engenho", intocáveis em sua imagem, sua moral e história: o senhor ainda está colado nas costas do brasileiro até quando ele pensa "defender os seus direitos".


Alberto Lins Caldas




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SONETO SÁDICO



Legal é ver político morrendo
de câncer, quer na próstata ou no reto,
e, pra que meu prazer seja completo,
tenha um tumor na língua como adendo.

Se for ministro, então, não me arrependo
de ser-lhe muito mais que um desafeto,
rogar-lhe morte igual à que um inseto
na mão da molecada vai sofrendo.

Mas o melhor de tudo é o presidente
ser desmoralizado na risada
por quem faz poesia como a gente.

Ele nos fode a cada canetada,
mas eu, usando só o poder da mente,
espeto-lhe o loló com minha espada.


Glauco Mattoso




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